Capítulo Quarenta e Dois
Minha cabeça fervilhava e meu estômago se contorcia de nervosismo. Apresentar-me no festival começava a me deixar ansiosa, embora só agora eu fizesse parte do backing vocal. Fiquei um tempão secando o cabelo e repassando as músicas na minha cabeça.
Mamãe lavou a camiseta de Patti Smith. Vesti-a com cuidado.
Quando desci, Zac estava na sala, com Tallulah no colo. Algo em sua expressão me incomodou. Ele se esforçava para dar a impressão de que estava tudo bem.
- Mamãe não disse que você estava aqui – comentei.
Tallulah saltou do colo dele e escondeu-se embaixo do sofá.
Zac disse:
- É Ash . Ela está muito mal. Depois que você saiu ela desmaiou. Tivemos que chamar uma ambulância.
- Qual é o problema?
- Eles não sabem direito, mas parece que o sistema imunológico dela entrou em pane. Estão achando que ela não tomou os remédios dela direito. Ela está com febre altíssima, passando mal. Mais tarde, se a situação dela se estabilizar, é provável que seja transferida para um hospital em Londres.
Lembrei-me de Marcus.
- Zac, saia imediatamente daqui! Vá, agora! – empurrei-o pela porta. Atravessamos a rua:
- Marcus pegou catapora. Ash ficou muito tempo com ele outro dia – expliquei.
- Isso pode ser terrível. Vou hoje mesmo para Londres, depois do show.
- Vou com você. Vai ficar tudo bem, eu já tive catapora – toquei de leve no braço dele.
Zac afastou-se de mim.
- Não, Vanessa.
- Irei amanhã então – estava assustada com a frieza de Zac.
Lentamente, ele me disse que o melhor era eu me afastar.
- Não vou atrapalhar nada. Podemos nos encontrar para um café depois que você visitar Ash.
- De jeito nenhum, Vanessa. Isso tem de ter um fim agora.
As palavras dele foram um murro:
- Quer dizer que a noite passada foi apenas uma brincadeira? – lágrimas quentes desciam pelo meu rosto.
Zac não disse nada.
- Fale comigo! – gritei.
- Tudo o que eu disse a noite passada foi sincero...
- Porque eu estou sentindo que tem um “mas” nessa história?
- Por favor, Vanessa , não torne as coisas mais difíceis do que elas já são.
- Vou torná-las dificílimas para fazer você ficar.
- Você está falando como Sarah. Tentando me prender.
- Sem grosserias, Zac – falei baixinho enquanto buscava apoio num muro. – Desta vez, você me feriu no coração e no estômago.
Zac se afastou e começou a andar em círculos, muito agitado.
- Nunca antes me senti assim em relação a ninguém, Vanessa. Você é especial para mim. Temos tantas afinidades. É assim que me sinto.
- Eu também, Zac.
- Neste momento, Ash precisa mais de mim do que você.
- Mas não precisamos nos separar.
- Ashley não tem ninguém. Seu pai e sua mãe já morreram. Foi rejeitada por todos da família, a não ser por uma prima que a deixa morar com ela “por obrigação”, e desde que ela nunca conte a ninguém que é HIV - positiva. Prometi a mamãe que eu sempre cuidaria de Ash. E ela sempre cuidou de mim.
- E o grupo de apoio? Eles não podem ajudá-la?
- Eles são nossa linha vital de comunicações. Um lugar pra onde vamos sem precisar nos pôr em xeque a cada cinco minutos. Onde as pessoas nos compreendem. Mas isso não é o bastante.
- Entendo.
- Você tenta, Vanessa .
- Estou tentando agora, realmente estou. Não estou lhe pedindo para deixar de ser amigo de
Ash.
- Neste momento, tenho de pôr Ash em primeiro lugar na minha vida. É a coisa certa a fazer. Não se trata de um jogo. A saúde dela depende disso.
- Quer dizer que precisamos parar de nos ver? Isso não faz sentido.
- Precisamos nos separar. Há coisas que preciso fazer...
Engoli em seco. Zac tinha de ficar ao lado de Ash e manter a promessa que tinha feito à sua mãe e à de Ash. Mesmo que não amasse ela como me amava, tinha de estar ao lado dela. Ela precisava mais dele. No fundo, eu sabia que o que ele estava dizendo era certo.
Pensar nisso doía tanto...
Meu cérebro tentava encontrar uma saída.
Por quanto tempo? Alguns dias, algumas semanas, ou mais?
- Não podemos nos prender a promessas falsas – a voz de Zac estava áspera.
- Podemos manter contato? – eu me sentia um animal disposto a lutar até a morte para salvar seus filhotes. Se pelo menos eu pudesse me corresponder com ele por e-mail, tinha certeza de que poderia convencê-lo.
- Ash precisa acreditar que está tudo acabado entre nós. De outro modo, ela não me deixaria mais cuidar dela. Ela precisa de mim.
- Eu também preciso de você – respondi baixinho.
- Não, não precisa – Zac afastou o olhar. – Você não pode precisar de mim, pra mim é muito difícil lidar com essa situação. Tenho sido egoísta, Vanessa. Você deve procurar seu próprio caminho no mundo. Além do mais, o que está em jogo não é apenas Ashley.
- Você está usando a doença dela como um pretexto? – Me irritei.
- Não, mas essa crise dela me fez pensar novamente sobre nós. Não é justo com você, Vanessa.
- Já sou bem crescida e quero ficar com você. Você me explicou alguns dos riscos que posso correr; posso aprender mais em nosso convívio. Lembre que você é o meu amor – segurei o rosto dele firmemente com as mãos e voltei-o para mim.
Ele desviou o olhar.
- É porque a amo, Vanessa , que preciso ficar algum tempo sem vê-la. Não quero que você tenha de lidar com essa situação se eu ficar muito doente. Você é jovem demais. Precisa de espaço para respirar. Não sei direito se estou pronto para lidar com um relacionamento desses. A proximidade me dá medo. O medo do que pode acontecer...
- Você está me abandonando...
- Vou para a Itália com Ashley . Um primo de papai tem uma casa de campo lá, e acho que o clima poderá ajudá-la. Eu já pensava em fazer isso antes de nos conhecermos.
A voz de Zac estava fria e firme.
- Não posso ficar tão longe, sem manter contato com você – disse. – É horrível até mesmo pensar nessa possibilidade.
- Todo ano, no primeiro sábado de agosto, às dez da noite, olhe para o céu e verá Cassiopéia, ao norte. Eu estarei fazendo o mesmo.
A dor de perder Zac era tão intolerável que eu só conseguia dizer:
- Até mais, então – e voltei para o chalé sem olhar para trás. Nada que eu pudesse dizer ou fazer mudaria a situação.
Me enfiei na cama, chorando muito. Mamãe teve a delicadeza de me deixar sozinha. As lágrimas secaram e atenuaram minha dor. O fato de me dizer que talvez tivéssemos de esperar anos seria o jeito de Zac se livrar de mim? Ele talvez não estivesse vivo dentro de dois ou três anos...
Eu não suportava essa idéia. Não. Eu sabia que ele me amava. A ultima crise de Ash o abalara, ele decidira fazer a coisa mais nobre em relação a mim e a ela . Ele ía manter a promessa feita à mãe de Ash e ficar ao lado da amiga, dando-lhe toda a força num momento muito difícil. Ao me deixar, talvez ele estivesse fazendo aquilo que via como a coisa certa. Talvez nós dois precisássemos de um pouco mais de experiência de vida.
Amei-o ainda mais por isso. Ele estava assumindo a responsabilidade por alguém, e mantendo a promessa feita. Era uma promessa que precisava ser cumprida. Não o tipo de promessa ao qual gente como Selena estava acostumada. Nem o tipo de promessas fúteis que gente como Kai fazia e quebrava a cada minuto.
Que tipo de relação poderíamos ter no futuro se ele não apoiasse Ash agora? Eu teria de aprender a lidar com a dor de me separar de alguém que amava tanto.
Mas havia uma ultima coisa a fazer.
Deixar Zachary saber o quanto eu o amava.
Capítulo Quarenta e Três
Assim que pisamos no palco, uma câmera começou a nos acompanhar, flashes espocavam como se fôssemos grandes estrelas do rock. Pouco importava que a câmera fosse de Julius. Ava acenou para nós da primeira fila. Estava emocionadíssima e berrava nossos nomes. Mamãe estava sentada ao lado dela (Muriel ficara tomando conta de Marcus). Até Sarah estava lá, mas não havia sinal de Kai.
Gostaria de dizer que estávamos maravilhosos, mas irregulares em muitos aspectos. É isso o que há de bom na música anti-folk. Não se trata de ser pretensioso, mas de comunicar-se. Pelo menos, era isso que Lucas vivia dizendo. Zac saía um pouco do ritmo de vez em quando, meus olhos estavam inchados e minha voz tremia.
Lyle estava ficando muito nervoso nos bastidores, cercado por seu pessoal.
Fui para o centro do palco e disse:
- Sei que Lyle está louco para começar, e que vocês estão loucos para vê-lo, mas eu gostaria de cantar mais uma música. Seu título é Because the Night, e nem preciso dizer o nome da pessoa à qual a dedico.
Peguei a banda de surpresa. Corbin já estava fora do palco, e comecei a cantar. Enquanto cantava, transformei todos os sentimentos que me sufocavam em uma bola de emoções e deixei tudo sair. Esqueci que havia um público à minha frente. Deixei rolar.
Queria que Zac soubesse quanto ele significava para mim.
...Because the night belongs to love...
Quando terminei de cantar fez-se um silêncio.
Acho que fiz papel de tonta, pensei, sentindo-me afundar.
Aí Zac subiu ao palco e me beijou na frente de todos.
As pessoas aplaudiam e gritavam. Flashes. Até Lyle veio para o palco faturar um pouco da nossa glória.
Segurei-me em Zac. Não havia mais nada a dizer. Tudo o que eu podia fazer era abraçar-me a ele pela última vez. Pouco importava que diante de mim houvesse centenas de pessoas.
Aquele beijo ficaria comigo por muito, muito tempo.
Epílogo
Mamãe achou que eu tinha enlouquecido quando pedi um telescópio como presente de Natal, e meus vizinhos devem pensar que pirei de vez ao me verem vasculhando o céu noturno em busca de estrelas. Mas aqui é Londres, e ninguém diz nada.
Estou totalmente de acordo com Platão. A astronomia realmente nos obriga a olhar para cima, à procura de um novo mundo. Amo o céu noturno. Olhar para o alto faz nosso espírito elevar-se também. Sempre me sinto mais cheia de esperanças quando olho para as estrelas.
Mesmo em Londres, numa noite clara, dá para vê-las. Existem tantas constelações com nomes fantásticos como Ursa Maior, Corona Borealis e Áquila.
Por fim, depois de muita tentativa e erro, encontrei Cassiopéia.
Gostaria que mais pessoas entendessem que não há limite para o processo de crescimento. Algumas pessoas podem ser maduras aos dezesseis anos, outras podem agira como crianças mimadas durante a vida toda. Kai e Sarah são considerados adultos, mas vejam como se comportam.
Também não há limite de idade para encontrar o verdadeiro amor. O fato de eu ter só quinze anos quando conheci Zac não significa que nossos sentimentos não fossem verdadeiros, nem que não pudéssemos fazer a coisa certa, por mais que tenhamos nos machucado.
Amar Zac me ensinou muitas coisas. Por exemplo, a aprender com meus erros e perdoar os erros dos outros. Não tenho medo de encarar aquilo em que acredito e não me sinto obrigada a fazer o que todos querem que eu faça. Não estou mais em segundo plano.
Quando olho para o céu noturno, sinto-me perto de Zachary .
Esta noite, sinto-me especialmente próxima de dele porque sei que, onde quer que ele esteja, estará olhando para Cassiopéia e pensando em mim.
FIM
Todos tivemos de levantar e formar um círculo ao redor da fogueira. Devia haver umas cem pessoas ali. Cassie lançou incenso ao fogo. Uma pessoa começou a percutir o tambor lentamente, com uma batida triste, enquanto alguém nos disse para encararmos todos os sofrimentos que havia em nossas vidas. Pensei nos vírus no sangue de Zac e comecei a andar em volta do círculo, pisando neles e gritando para que desaparecessem.
Alguém começou a tocar uma flauta, outra pessoa fez soar uns sinos indianos e, cada vez que o ritmo mudava, éramos incentivados a abraçar a dor e a banhá-la em uma luz dourada. Estendi a mão e imaginei que um vírus tivesse pousado sobre ela. Envolvi-o em uma luz dourada que era viscosa como mel. O vírus gostou disso e ali ficou, congelado no mel, que começava a endurecer. Agora, preso, já não podia mais fazer mal a ninguém.
Depois, todos giraram ao redor do círculo. Era como uma dança country que vai se tornando cada vez mais frenética. Comecei a girar com os outros.
Alguém me deu um tapinha no ombro e disse com voz majestosa:
- Posso ter a honra da próxima dança?
Na hora, pensei que fosse Julius, mas não era.
Era Zac .
- Não imaginava que você fazia o gênero hippie – disse ele com um sorriso.
Olhei pra ver se Ash estava por perto. Ela certamente viria com uma de suas ironias. Mas Zac estava sozinho.
- Senti sua falta – disse ele, dando-me um beijo na testa. Depois, fez uma careta: - Epa, você está toda suada e com um gosto estranho.
Caí na risada.
- Deve ser incenso.
Ele passou um braço pelo meu ombro e disse:
- Vamos indo, tenho uma surpresa pra você.
Fiquei imóvel e fingi que não pretendia arredar pé dali.
- Quem disse que pretendo sair do círculo de cura?
- Ah, é disso que se trata? Bem, acho que você já pode sair. Já parece bem curada. Achei que poderíamos ficar algum tempo sozinhos antes das coisas pegarem fogo de vez.
Quando eu estava saindo do campo, Cassie correu até mim, pôs algo na minha mão e me deu um abraço, dizendo:
- Seja forte, Vanessa .
Coloquei a pedra no bolso do meu casaco e sorri pra ela.
Capítulo Trinta e Nove
Saímos do campo onde acontecia o festival e fomos para a parte de trás do Solar Netherby. Zac tapou meus olhos com as mãos e me levou por um caminho. Escorreguei na grama molhada, mas ele me segurou.
- Surpresa! – disse ele.
Era incrível. Havia uma gruta banhada por luzes verdes e cor-de-rosa. A água jorrava da boca de uma estátua de Netuno.
- Um dos privilégios de ser filho de um lorde é ter acesso a um lugar como este – disse ele.
Eu fiquei ali parada, boquiaberta, enquanto Zac prosseguia.
- Meu próximo truque... – abriu os braços como se fosse um desses mágicos baratos e correu em direção ao templo grego. Segundos depois, tudo estava iluminado por luzes de decoração de Natal.
- O Natal chegou bem antes – comentei, rindo, enquanto me sentava ao lado de Zac em um tapete de lã escocesa cheio de almofadas. Ao lado dele estava seu telescópio e um velho cesto de vime.
- Gostaria de ficar um tempo a sós com você, tudo bem?
- Tudo bem. Que boa surpresa! E não precisamos nos preocupar com atrasos. Todos sabem que vou passar a noite na barraca com o pessoal da banda – respondi.
- Acho melhor apagar as luzes agora.- Zac começou a acender várias velas.
- Se eu não economizar, papai vai engrossar comigo quando chegar a conta de luz.
Sorri quando Zac abriu a cesta e dela tirou uma garrafa.
- Mais um dos privilégios de ser filho de um lorde.
- Champanhe? – perguntei.
- Digamos que sim, só que de pêssego e sem álcool. Foi o que encontrei de melhor, mas podemos fingir que é outra coisa. – Ele abriu a garrafa, pegou dois copos antigos e nos serviu.
- Não temos champanhe em casa, papai é a pessoa mais pobre que eu conheço. Dinheiro é um eterno problema para nós. A manutenção de Netherby custa uma fortuna, e além isso ele dá a maior parte dos lucros dos festivais a obras de caridade.
- O mesmo acontece em casa. Mamãe precisou comprar uma casa muito cara para eu poder freqüentar uma boa escola e conviver com crianças motivadas e bem ajustadas que só pensavam em me excluir.
O que me fez pensar em...
Aproveitei e contei tudo sobre o roubo de Sel na banca de bijuterias.
- O que será que está acontecendo com eles neste momento?
Zac esticou o corpo do tapete e me contou .
- Fácil. Estão lá em casa. Rebecca chorando feito um bebê. Sel insistindo em se fazer de inocente. O dono da barraca ficou contente de reaver suas coisas. A polícia está ocupada com outro problema. Então papai telefonou para os pais deles e, com sua melhor voz “lorde Netherby”, pediu que viessem imediatamente buscar seus filhos. Eles vão passar a noite trancados no quarto de hóspedes.
Suspirei, irritada.
- Quer dizer que nada de polícia? Isso quer dizer que Sel não vai parar por aí. Ela consegue dobrar os pais sem o menor esforço.
- Eu não teria tanta certeza. Gente como ela acaba sendo pega.
- Não, não acaba. Quando é que Kai vai ter o que merece? Não é justo... – comentei, fechando a cara. – E não me venha dizer que a vida não é justa.
- Você gostaria de estar no lugar de Kai ou de Selena por um só segundo? – perguntou Zac, com ar muito sério. – Suportaria o vazio moral deles?
- Talvez fosse divertido. Escreveria poemas melhores e seria muito mais legal com Sarah do que o verdadeiro Kai. Seria divertido saquear o guarda-roupa dela. Mas espere... eles estariam no meu corpo ao mesmo tempo. Não, de jeito nenhum. Eu não suportaria ser Sel nem por um segundo.
- Ter força interior é a melhor defesa contra esse tipo de gente – disse Zac.
- Foi o que a velha dama hippie me disse. Ela me pediu para ser forte. Gostaria de não ter cedido à vontade de Sel tantas vezes, só para ter uma vida calma. Mas Sarah ama Kai, ama esse sujeito de verdade.
- Mas ele não retribui todo esse amor, retribui? – disse Zac.
- Talvez ela apenas precise dele – acrescentei, à medida que uma imagem de Ash formava em minha cabeça. Eu sabia que Ash precisava desesperadamente da amizade de Zac.
- Ele a despreza, mas ao mesmo tempo precisa dela. Isso não é amor.
- Ele tem Emma e um bebê a caminho – comentei.
- Já imaginou como alguém com esse caráter vai se sair nesse teste?
Terminei de beber e estendi os braços:
- Mas não é que você e eu somos maduros e sábios? Ah, se as pessoas nos ouvissem.
Zac riu.
-Vamos dar uma espiada numa coisa velha e sábia.
Pegou o telescópio e posicionou-o na direção norte. Olhei para cima. Respirei fundo, enchi os pulmões de um ar delicioso e mergulhei na observação da paisagem celeste. Coloquei uma das mãos nas costas de Zac e continuei a olhar para o alto.
Senti algo que nunca sentira antes. Era um sentimento muito além da felicidade e muito próximo da tristeza. Um sentimento tão poderoso que teria que passar logo, do contrário eu explodiria. Eu me sentia assim porque estava com Zac.
O que eu estava vivendo não era um conto de fadas, era algo muito mais precioso. Zac me dera a opção de acabar nosso namoro, mas ainda assim era apavorante eu ter decidido continuar. Confiara em meus sentimentos, e me sentira orgulhosa de mim mesma. Porque a escolha era difícil, e porque tínhamos nos mostrado à altura dela, estávamos tendo ali aquele momento perfeito, assim como havia tantos outros ainda por vir.
A gente se compreendia e se gostava muito. Eu sabia que teríamos força para apoiar um ao outro. Queria saber mais sobre ele. Queria muito compartilhar outras experiências com ele. Zac tirou os olhos do telescópio.
- Um céu noturno perfeito. Dá até pra ver Cassiopéia.
Senti um calafrio ao me lembrar do encontro com Cassie, e de como ela me pedira pra ser forte.
Olhei no telescópio e segui as instruções de Zac .
- Já está vendo? É um grupo muito fácil de localizar. Tem cinco estrelas principais que formam a letra W.
- Achei!
- E eu achei você, Vanessa. Você não imagina quanto isso significa pra mim.
Zac pegou minha mão. Afastei-a e disse:
- Seu manteiga derretida.
Ficamos muito tempo ali, deitados e abraçados, sem dizer nada. Aspirei o cheiro maravilhoso de Zac e descansei minha cabeça em seu peito, sentindo seu coração bater. Minha garganta estava seca, todos os meus sentidos e sentimentos em sua máxima intensidade. Enfiei a mão por baixo da camisa dele e senti sua pele. Era macia e calorosa.
Em seguida, tive um acesso de riso.
- O que foi? – disse ele , assustado.
- Estava me lembrando da primeira vez em que o vi. Você estava sentado numa espreguiçadeira na casa de Lucas , passando a mão no peito, exatamente como estou fazendo agora. Eu não conseguia tirar os olhos de você. Parece engraçado que tanta coisa tenha acontecido desde aquele dia.
- Você é louca, Vanessa. O grande amor da minha vida.
Zac disse essas palavras tão baixinho que quase pensei ter ouvido seus pensamentos. O peso daquelas palavras, que aparentemente não passavam de um clichê, pairava no ar com tanta força que quase dava para senti-las como uma presença física. Ele já escrevera que me amava, mas era a primeira vez que dizia isso em alto e bom som. Pensei em dizer-lhe o mesmo, mas me contive. Não havia pressa. Haveria muito tempo para eu lhe dizer como me sentia. Iríamos freqüentar a mesma escola.
Naquele momento, bastava estarmos juntos, quase adormecendo em um templo grego, admirando as estrelas.
Capítulo Quarenta
Na manhã seguinte, fui acordada pelos gritos de uma gralha. Nem sinal de Zac, a não ser um bilhete dizendo que ele tinha ido preparar nosso café. Acho que nunca tinha acordado tão cedo. Vesti meu casaco e levantei para me aquecer. Todo meu corpo parecia carregado de eletricidade.
Para mim, era um novo dia e um recomeço. Algo dentro de mim mudara. Era como se eu visse as coisas claramente pela primeira vez em toda a minha vida. Tinha plena consciência de minha história com Sel e Joe e sabia onde queria estar: com Zac . Ao enfiar as mãos no bolso para me aquecer, senti o volume da pedra que ganhara de Cassie. Ao olhar para ela a luz do dia, vi que era um pedaço de âmbar com um pequeno inseto preso no interior. Passei a mão nela e a recoloquei no bolso.
Zac voltou com uma velha garrafa térmica e duas xícaras com algumas rachaduras.
- As coisas estão pegando fogo em casa – disse Zac. – Selena e Rebecca ficaram no quarto de hóspedes. Os pais de Rebecca chegaram e estão furiosos.
Dei de ombros.
- Não tenho o menor interesse nesse assunto.
- Mesmo que seu nome tenha sido mencionado?
- Dessa vez, não podem me culpar – respondi.
- Rebecca contou à mãe dela de que modo o anel foi parar em sua bolsa e disse: “É isso que deve ter acontecido com a pobre Vanessa”.
- Não preciso da piedade dela! – respondi rispidamente. – E se Rebecca contar o que aconteceu, vão acreditar nela. Afinal, sua mãe é presidente do conselho escolar. Foi ela quem recomendou que eu recomeçasse a minha vida em outro lugar.
Zac pos a mão em meu ombro e perguntou:
- Quer dizer que não lhe interessa saber o que aconteceu quando a mãe de Sel chegou?
Meus ouvidos se aguçaram. Apertei minha xícara e pedi que ele me contasse tudo.
Antes que ele dissesse uma palavra, ouvimos o barulho de alguém se aproximando e Aurora surgindo do meio dos arbustos:
- Você perdeu um puta arranca-rabo!
- Modos, Aurora! – dissemos, eu e Zac ao mesmo tempo.
Ela se enfiou entre nós e começou a contar:
- Depois que você saiu de fininho com a garrafa, as coisas começaram a ficar parecidas com filmes de tribunal. Ao ver os pais, ela se derreteu em lágrimas e começou a se fazer de vítima – os olhos de Aurora brilhavam.
Zac e eu trocamos um sorriso.
- A mãe de Rebecca disse que a filha dela nunca se metera em confusões antes de fazer amizade com Selena . Sel respondeu que não tinham achado nada com ela: “Exatamente como da ultima vez, não havia nada comigo”.
- A mãe de Rebecca ficou branca de raiva e disse “Essas suas histórias não tem nada de verdadeiras. A verdade mesmo é que você sempre se faz de esperta para sair impunemente das coisas que apronta”. Sel deu uma risadinha irônica, no que foi seguida pelo pai. E isso foi demais para nosso pai, Zac .
Aurora levantou e começou a imitar lorde Netherby:
- Sua atitude é desprezível e explica a conduta imoral de sua filha. Eu disse à polícia que não pretendia dar queixa, mas mudei de idéia. Há uma testemunha do roubo. Tenho certeza que o vendedor não se recusará a depor, afirmando que viu uma garota colocar o anel na bolsa da outra. Gostaria de acrescentar que Vanessa Hudgens é amiga pessoal desta família, e que a considero uma garota excelente. Também estou pensando em escrever para a escola dela pedindo para reabrir o caso. Tenho influência. Deve haver câmeras ocultas instaladas na área da loja.
- Essa era minha idéia! – exclamou Zac. – Papai e Isobel ouviram falar de sua expulsão e esclareci tudo a eles. Espero que você não se importe.
Então Zac vinha pensando em arrumar algum jeito de me ajudar! Se fosse Joe , jamais perderia seu tempo comigo. Zac não era pessoa de fugir de um problema.
- Ainda não acabei! Quando ouviram isso, Sel começou a choramingar: “Eu não tinha a intenção de fazer isso. Não consegui evitar. Ninguém me impediu de agir. Vanessa e Joe me incentivaram”. O pai de Sel se ofereceu para pagar todos os prejuízos, mas papai disse que era uma questão de princípio, e que, a não ser que Sel confessasse formalmente à escola que usara o cartão de crédito, ele faria uma acusação formal.
Aurora gritava de alegria. Zac sorria.
E eu sentia um vazio por dentro. Eu não esperava semanas para que isso acontecesse?
Enquanto pegava minhas coisas e ajudava Zac a botar tudo em ordem, Aurora perguntou:
- Como está Marcus hoje? Ele não estava se sentindo muito bem ontem.
- Talvez ele só esteja muito agitado – respondi. Nada iria estragar meu dia.
Pelo menos, era o que eu pensava.
Embora ainda fosse muito cedo, já havia fila para usar os chuveiros e banheiros. Algumas pessoas ainda tocavam seus instrumentos. Um helicóptero sobrevoava o campo trazendo uma das bandas.
E eu ia fazer parte de tudo aquilo! Até meu ultimo dia de vida poderia contar que participei do festival Netherby!
Sarah dissera que eu poderia usar o banheirinho de seu trailer a qualquer momento, e então fui até lá e bati à porta. Ninguém respondeu. Bati novamente e agucei os ouvidos. Achei que tinha ouvido um soluço.
- Tudo bem com você, Sarah? – perguntei, já entrando.
Havia alguém sentado do lado dela. Assim que entrei, ouvi:
- Kai sente muito por ter magoado sua linda mulher de olhos tristes.
Ele acariciava os cabelos de Sarah e ela permitia. Os dois olharam para mim:
- Só vim tomar um banho, porque você disse que eu podia vir.
Sarah olhou-me demoradamente. Seus olhos brilhavam por trás das lágrimas.
- Vanessa ! Você vai ser a primeira a ouvir nossa novidade.
- Tem certeza, Sarah? – Kai não parecia muito sincero.
- Quero que o mundo saiba que estamos juntos de novo – Sarah dependurou-se no pescoço dele. – A vida tem sido um inferno sem você, Kai.
Kai olhou para os próprios pés e resmungou:
- Eu e Sarah voltamos. Vou reassumir meu trabalho na livraria e também volto a morar no Chalé.
- E Emma? – perguntei. As palavras escaparam antes que o bom senso pudesse irrompê-las.
Os olhos de Sarah perderam o brilho.
- Não vamos dar importância aos erros do passado. Estamos vivendo um recomeço, e não haverá culpa de nenhum dos lados.
Kai a abraçou.
- Esta é a minha bela dama! Estive encantado por uma sereia que envenenou meu corpo, mas meu coração sempre foi fiel a você.
Era nojento demais. Quanto me virei pra sair, disse com toda a ironia:
- E o bebê, também é um erro ao qual você não vai atribuir importância nenhuma?
Saí e bati a porta com força.
Capítulo Quarenta e Um
Saí do trailer pisando duro, cega de raiva. Como Sarah podia ser tão estúpida a ponto de cair outra vez na conversa de Kai? Como podia tratar a questão do bebê como “coisa sem importância”?
Só fui ver Ava quando já era bem tarde e trombei com ela.
- Sinto muito, não queria derrubá-la.
Ela ajeitou o penteado meio desfeito.
- Tudo bem, querida. Estou levando um pedaço de bolo de limão para Julius. Como você sabe, ele se esquece de comer.
Mas ficou me examinando por alguns segundos:
- Espere aí, quem estragou o seu dia? Teve algum problema com seu namorado? – perguntou piscando.
- Dei de cara com Kai e Sarah.
- Então eles estão juntos novamente e selaram a volta com um beijo. Adoro finais felizes. Você vai querer esses discos de volta? – perguntou.
- Conheço pelo menos duas pessoas que não verão isso como um final feliz.
Contei-lhe sobre Emma e o bebê que estava esperando. Ava empalideceu e ficou nervosa. Apoiou-se numa árvore para não cair. Senti-me mal.
- Não queria pertubá-la É que estou me sentindo furiosa. Não pensei no tipo de reação que você poderia ter.
Ava sorriu.
- Não estou chocada. Minha cabeça foi invadida por lembranças dolorosas, só isso.
Ela tremia.
- Sinto muito, Ava. Posso ajudar?
- Você chegou 44 anos atrasada para poder me ajudar... 16 anos de idade... Ainda me lembro tão bem de mim! Embora soubesse de tudo. Mas não sabia o suficiente para evitar uma gravidez. Era um problema muito sério naquela época. Tenho certeza de que o garoto ficaria do meu lado, mas teve de ir para a universidade. Tinha grandes sonhos de tornar-se escritor. Para ele, eu não passava de uma aventura de verão. Meus pais poderiam ter me rejeitado, mas me mandaram para uma maternidade onde só pude segurar meu filho por dez minutos antes que o levassem embora – enxugou uma lágrima. – Foi melhor assim. Eu não tinha condições de mantê-lo. Uma família o adotou e tive de prosseguir com meus cursos de cabeleireira. Naqueles tempos, a gente perdia totalmente o contato.
Ela tirou um lenço amassado do bolso do casaco e assoou o nariz ruidosamente. Abracei-a.
- Bem, agora vamos falar dos discos. Vocês não disseram que eles valem uma pequena fortuna?
- Zac disse que eles são extremamente raros – adorei a simples menção do nome dele.
- Vou ver se dá para deixá-los com a pessoa certa – disse Ava.
Quando voltei para a barraca, o ensaio já tinha começado. Lucas estava muito ocupado, com os nervos à flor da pele. Zac dava o melhor de si para improvisar alguns instrumentos de percussão sobre um tampo de mesa.
Ash estava agachada num canto com cara de infeliz. Corbin distribuía aos membros da banda uma lista com as canções que iríamos tocar.
Lucas avisou que havia uma novidade:
- Não conseguimos encontrar você e Zac para avisar. Lyle Hasslett, o vocalista da banda Stale Pumpkins, decidiu fazer uma apresentação no festival, e por causa disso três das nossas canções foram cortadas.
- Isso não me parece nem um pouco anti-folk – comentei.
- Não é culpa dele. É coisa do pessoal de relações públicas. Querem que ele faça uma apresentação combinando elementos de gêneros diferentes – respondeu Lucas.
- Parece difícil – brinquei.
Corbin riu.
Lucas franziu a testa.
- Isso significa que tivemos de cortar algumas canções, inclusive Because the Night.
Senti uma enorme decepção. De repente, percebi que todos os olhares se voltavam para mim, esperando alguma reação.
Cobri o rosto com as mãos.
- Parem de olhar para mim! Não vou morrer por isso!
Zac riu.
- E você ainda pensa que é uma diva? Se fosse, devia estar tendo um ataque de nervos!
Dei de ombros, mas meu gesto foi visivelmente exagerado.
- É só o Festival Netherby, a maior vitrine de música alternativa do país. Sem problemas – depois, comecei a fingir uma crise de nervos. Até Ash deu risada. Eu tinha de sair por cima daquilo.
Faltavam algumas horas para a apresentação, e eu precisava desesperadamente ver como estavam mamãe e Marcus. Por isso, voltei para o chalé.
Descobri que Marcus estava com febre, e mamãe decidira chamar um médico. Ele dormia quando cheguei.
- Ele pegou catapora – disse mamãe. – Vai ficar doente por algumas semanas. Depois melhora.
Era estranho estar sozinha com mamãe na casa de Sarah. Mamãe pertencia a um mundo de cozinhas limpas e modernas, com geladeiras abastecidas. Era estranho observá-la tomar chá numa xícara rachada que, em nossa casa, teria sido jogada fora.
- Senti saudades suas – disse mamãe.
- Ninguém para reclamar da vida – respondi, revirando os olhos.
- Ninguém para me pedir dinheiro ou reclamar da minha comida.
- Depois desse tempo aqui com Sarah, nunca mais vou fazer isso. É possível fazer tanta coisa com uma lata de atum...
Mamãe riu:
- Ela sempre foi uma péssima cozinheira.
- Você está sabendo que Kai voltou para ela se arrastando?
Descrevi a cena que vira no trailer.
- Se isso faz Sarah feliz, não vou criticar – mamãe olhou para mim com um dos seus olhares fixos. – Além do mais, ele fez maravilhas com você.
- Você quer dizer que estou falando novamente – pus a língua para fora.
- Você parece diferente, mais confiante. Não sei como explicar. Imagino que tenha se tornado mais adulta.
Respirei fundo. Queria lhe contar o meu verão com Zac , mas sabia que ainda não era o momento.
- Gostaria de recomeçar minha vida por aqui, mamãe. Há uma excelente escola comunitária e farei dezesseis anos em setembro. Posso trabalhar na livraria ou na lanchonete. Se Kai não me deixar ficar no chalé, tenho certeza de que consigo um apartamento barato. Tenho aqui muitos amigos que tomarão conta de mim... Por favor.
Mamãe bebericou seu chá muitas vezes antes de responder:
- Tem certeza de que não vai sentir saudades de casa? Eu já lhe arrumei outra escola em Londres.
- Claro que sim, mas você e Marcus podem vir aqui quando quiserem, e posso ir a Londres de vez em quando. Sei que as coisas podem funcionar bem para mim aqui.
- Vou pensar seriamente no assunto, mas preciso que você seja honesta comigo a respeito daquela história do cartão de crédito.
Foi o que eu fiz. Naquele momento, tudo era tão irrelevante para mim! Contei inclusive sobre Rebecca e o anel e sobre a atitude de lorde Netherby.
Mamãe pulou da cadeira:
- Vou pegar esse telefone agora e fazer a profª Kelly aceitá-la de volta.
- Não, mamãe. Não sei se quero voltar para Londres.
Deixei mamãe ter um acesso de cólera e maldizer o modo como todos na escola a fizeram se sentir e como iriam se arrepender. Quando terminou de tomar seu chá, disse:
- Eu sempre desconfiei que Selenas era a causa disso tudo.
- Pois então não me mande para uma escola cheia de Selenas! Não quero voltar para um lugar obcecado por notas e no qual, antes de qualquer coisa, devo me sentir muito grata por ser aceita, já que não sou nem rica nem gênio. Quero ir para um lugar que valorize o que sou e o que posso fazer.
Mamãe me olhou demoradamente antes de dizer, com a voz mais suave que eu já ouvira:
- Uau! Como você cresceu!
- Não exagere. Ainda sou capaz de matar alguém por um chocolate – comecei a cantar “Chocolate já!”, a nossa canção.
Mamãe riu e tirou da bolsa uma grande barra. Consumimos o chocolate num piscar de olhos e começamos a nos preparar para a apresentação.
Tomei um banho demorado. Queria me sentir bem naquela noite.
Mal sabia eu que as coisas estavam acontecendo a mil por hora enquanto eu me banhava feito uma estrela de cinema e sonhava.
Atravessei o campo correndo. Na entrada do solar Netherby, não foi fácil convencer os guardas a me deixar passar.
- O acesso ao solar é proibido - disse-me um guarda enorme, de braços cruzados.
- Estou no grupo que acabou de entrar com a gata - insisti, mostrando os arranhões no meu braço.
Eles telefonaram para o solar e finalmente me deixaram entrar.
Todos se encontravam reunidos em volta da mesa da cozinha. Na extremidade da mesa, estava o mais belo cesto para gatos que eu já vira. Era uma versão em miniatura do solar Netherby, em vime. Tallulah miou pra mim.
- Alguém aqui teve muita sorte - falei, brincando com o que acontecera com a gata.
- Vanessa , você foi tão corajosa! Venha sentar-se aqui - Aurora indicou-me uma cadeira a seu lado na mesa. - Você está ferida como Zac ?
Zac estava sentado na outra extremidade da mesa. Trocara de camiseta, e Isobel fazia curativo nos arranhões de seus braços.
- Isso vai doer, Zac .
Olhei para o anti-séptico e estremeci. Sabia que ele não podia correr o risco de pegar uma infecção. Olhei para Zac , mas ele desviou o olhar.
Marcus não parava de falar:
- Tenho certeza de que meu casaco agüentaria o peso de Tallulah se ela tivesse resolvido pular - dizia ele.
- Por que pular quando se pode descer no colo de alguém? - disse, desesperada para atrair o olhar de Zac . Ele parecia decidido a não olhar para mim. Eu precisava fazer algo. Deixara passar um monte de oportunidades de esclarecer as coisas. E não estava disposta a deixar passar mais uma.
- Ontem à noite eu queria muito ver a Cassiopéia, mas o céu estava nublado demais. E cheguei um pouco atrasada. Mamãe e Marcus apareceram de repente - comentei.
- Nunca me passaria pela cabeça que você gosta de ver estrelas - disse Isobel, surpresa.
- Comecei a me interessar por elas neste verão. Li alguns livros sobre isso - respondi. Zac continuava com o olhar distante.
- Ela chegou em casa com uma carta de amor - disse Marcus, intrometendo-se na conversa.
- Eram anotações de astronomia, seu bobo - respondi.
Zac continuou fazendo de conta que eu não existia.
Aurora pôs uma grande xícara à minha frente.
- Tome um pouco de chocolate quente. Gente corajosa merece.
Tentei identificar o conteúdo pelo cheiro.
- Hum, tem um cheirinho de laranja - tomei um gole.
- Mamãe pôs um pouco de rum - disse Aurora sentando-se novamente ao meu lado.
- Licor, Aurora, licor de laranja. Francamente, não sei com quem ela aprende essas coisas - Isobel balançou a cabeça em sinal de desaprovação.
- Com a senhora, mamãe - disse Aurora.
- Está delicioso - falei, esvaziando a xícara.
Sarah se levantou:
- Preciso voltar para a minha barraca.
- Vou levar Tallulah para casa - ofereci. Precisava de um descanso. Deixara meus sentimentos bem claros e não sabia qual seria a reação de Zac. Agora que ele tivera tempo para refletir, era bem possível que mudasse de idéia a meu respeito!
- Zachary pode levá-la de carro. Isso vai poupar algum tempo. E na volta ele pode pegar algumas coisas para mim na marcearia. Estou muito ocupada para ir lá - disse Isobel.
Bem! Estava ali a chance de saber o que ele pensava.
Nós também vamos - disse Aurora, levantando-se e dando uma cutucada em Marcus.
- Você fica. Você vai dar uma entrevista àquele horroroso programa infantil - disse Isobel.
- Qual programa? - quis saber Marcus.
- Hard Cheese - respondeu Aurora.
- Você vai ser entrevistada por Kelly e Leroy? - perguntou Marcus arregalando os olhos.
Aurora fez que sim:
- Se quiser, pode ir comigo.
Zac estava vestindo o casaco e pegando as chaves do carro.
- É melhor nos apressarmos. O trânsito está infernal.
Peguei o cesto para gatos, mas no mesmo instante me lembrei de algo.
- Espere um pouco - pedi, e perguntei a Aurora: - Você não vai precisar deste cesto para o seu gato?
Isobel deu a lista de compras a Zac.
-Aurora não tem gato.
Zac miou.
Ah, meu Deus! Quase perdi o fôlego. Não havia gato nenhum! Que coisa mais embaraçosa!
Esperei entrar no carro para comentar a história:
- De todas as coisas desagradáveis, a pior de todas é se fingir de gato.
Zac riu.
- A mais gentil de todas, você quer dizer. Ninguém gosta de ser pego chorando.
- Como você é bonzinho - respondi, torcendo o nariz.
- Além do mais, se você soubesse que eu a vira se esvair em lágrimas, eu nunca teria tido uma chance com você. As primeiras inpressões são fundamentais.
- Lembro-me muito bem da primeira vez em que o vi.
- Na livraria?
- Nada disso. Você estava com bem pouca roupa quando o vi pela primeira vez.
Foi a vez de ele ficar vermelho.
- Agora ficou envergonhado? - brinquei.
- Você está inventando isso - Zac entrou com o carro na estrada que levava à casa de Sarah.
- Talvez sim, talvez não - respondi.
Tallulah miou e arranhou o cesto.
- Ela sabe que chegou em casa.
Zac abriu a porta do velho Land Rover.
Enquanto eu tentava sair do carro com o cesto, ele me pegou pelo braço e me fez parar. Cheguei bem perto dele e beijei seu rosto. Ele enrolou uma mecha do meu cabelo entre os dedos e ficou brincando delicadamente com ela.
Deixamos Tallulah em casa com bastante ração.
- Não precisamos voltar agora - disse Zac. - Isobel pode esperar pelas compras. Direi que pegamos o congestionamento do festival. Temos algumas coisas a resolver.
- Vai ser estranho ficar juntos à luz do dia - disse com um sorriso irônico.
Tiramos algumas coisas do sofá e nos sentamos.
- É tão calmo aqui - comentei, esticando as pernas.
- Com o som do festival parecendo um eco distante levado pelo vento, é como estar a salvo dentro de casa com uma tempestade caindo lá fora.
Zac deitou-se ao meu lado e disse:
- Quanto à noite passada... foi como se eu tivesse ficado séculos ali, à sua espera. Eu quis chegar atrasado de propósito, pois queria encontrá-la esperando por mim. Mas como você não chegou, uma parte de mim ficou aliviada. Convenci-me de que minha vida já é complicada demais sem um relacionamento sério.
Saí do sofá e fui para o tapete, ele fez o mesmo. Nossos braços se tocaram, e ele prosseguiu:
- Então escrevi o bilhete e fui embora rapidinho. Não dava pra tirar você da cabeça tão depressa assim. E eu ia encontrá-la na manhã seguinte...
- Joe não é meu namorado - disse.
- Vocês pareciam tão à vontade...
- Tanto quanto você e Ashley - respondi.
- Como diria Julius, touché!
- Joe é um gato e pode ser muito charmoso, mas não cheira bem.
- O quê?
- Ele não tem cheiro de limão misturado com terra molhada.
- Que nojo!
- É o cheiro que você tem pra mim, e que adoro - disse. - Adoro cheirar o seu rosto.
Zac sentou-se e pôs o rosto bem perto do meu.
- Então cheire.
- Só se você me disser qual é o meu cheiro.
Ele fez como se estivesse fungando meu rosto e meu cabelo.
- Hortelã fresca com um toque de jasmim.
Cheirou mais um pouco e disse:
- Bem, pode ser só suor.
- Pare com isso - disse, rindo.
Zac fez cara de amuado.
- Foi você que começou com essa história de cheiro!
- Como estava em Londres? - perguntei.
Foi como se alguém tivesse ligado uma tomada dentro dele. Seu rosto ficou sem expressão, e ele caiu de costas no tapete.
- O que houve? - perguntei.
- Nada - disse ele - e tudo...
E começou a chorar. Não com soluços altos, mas com lágrimas que desciam suavemente pelo rosto, executando uma dança delicada e lenta.
Ficamos em silêncio por um longo tempo, e eu disse:
- Miau!
Zac sorriu e, enxugando as lágrimas, disse:
- Quando eu era pequeno, costumava pensar que fora raptado por ETs, que tinham feito uma réplica do meu corpo e devolvido um Zachary ligeiramente defeituoso à Terra. Meu verdadeiro corpo ficava num tanque de flutuação cheio de uma resina macia e semitransparente que o mantinha aquecido e seguro. Meu verdadeiro eu estava esperando que os extraterrestres fossem derrotados. Meu eu replicado seria então forçado a permanecer no tanque. Eu não queria que ele fosse morto. Éramos todos vítimas do plano diabólico dos ETs. Eu passava quase todo o tempo fazendo desenhos de alienígenas e naves espaciais. Lia todos os livros que encontrava sobre esses assuntos. Imagino que eles me ajudaram a aceitar as coisas como elas são.
Acariciei os braços dele.
- Sinto muito.
- Vanessa , não quero que sinta pena de mim.
Ele afastou o braço, mas peguei-o de novo e disse:
- O que você espera que eu faça? Sinto muito que esse tipo de coisa tenha lhe acontecido. Não vou mentir. Sinto muito por mim mesma, inclusive, o que é patético. Sinto muito por mim mesma, e estou apavorada.
- Não tenha medo - disse Zac delicadamente.
- Como não? Há uma infinidade de coisas que nos assustam. Temos medo de altura e de cobras por um motivo: podem nos matar. Não estou apavorada com você, mas tenho um medo terrível do vírus que você traz dentro de si!
- Sei que os riscos são reais, mas eu nunca a exporia a perigo algum. Na verdade, você é que representa um grande riso para mim.
- Como assim?
- Meu sistema imunológico está muito comprometido. Os germes dos quais você se livraria facilmente são letais para mim. Muita gente pensa que o HIV pode ser curado com remédios. Na verdade, pode ser controlado com medicação, mas não existe cura.O vírus pode ser nocauteado, mas não há como matá-lo. Se deixo de tomar meus remédios por uma hora, tudo se descontrola. O vírus desperta, e preciso recomeçar toda a luta. Isso significa mais visitas ao hospital e mais exames.
Acariciei seus cabelos. Dessa vez ele não se afastou de mim.
Eu lhe disse:
- Quando somos crianças, achamos que tudo tem solução. Um brinquedo quebrado tem conserto. Alguém acende uma luz e nosso medo do escuro desaparece. Crescer talvez signifique tomar consciência de que a vida não é bem assim. Acho que, no fundo, eu sempre soube que Sel jamais diria a verdade. Que a nossa amizade não era tão profundo quanto eu acredito que as amizades verdadeiras devem ser. E sei que o HIV não vai desaparecer só porque eu gostaria que isso acontecesse. Os contos de fadas mentem. Nem sempre temos como ser salvos.
- Ah, então você está dizendo que eu não sou o seu príncipe encantado, e que você não vai se jogar aos meus pés?
- Fique sabendo, meu querido, que já vai longe o tempo em que as garotas se jogavam aos pés de seus príncipes – respondi, rindo.
Zac deixou-se cair sobre mim e fomos parar no tapete. Nenhum de nós fez um movimento sequer. Simplesmente ficamos ali bem juntinhos por muito tempo.
- Estou faminto – disse Zac , levantando-se.
- É porque você chorou – respondi.
Ele me abraçou.
- Saía por aí dizendo que me viu chorar e verá o que acontece.
- Não se preocupe. Vou acrescentar mais esse fato à lista de segredos eternos.
Abracei ele com força. Podia sentir seu coração batendo bem junto ao meu.
- Jasmim, com certeza! – disse ele, fingindo que fungava meu rosto novamente. Depois, foi comigo para a cozinha.
Estávamos lidando com a situação brincando, e parecia funcionar bem.
- Comidinha de gourmet – disse ele, voltando para o quintal com seu prato na mão.
- Nouvelle cuisine.
Estávamos dividindo três torradas com um pouco de atum e uma fatia de abacaxi.
- Quando você volta para Londres? – perguntou Zac.
- Não sei direito. Provavelmente no começo de setembro. Por quê?
- Eu pretendo ficar aqui por algum tempo. Vou estudar na escola comunitária.
- Uma vantagem de Selena continuar mentindo é que ainda estou sem escola. Pelo menos, não há nada definitivo. Sarah ainda não me mandou ir embora. Tenho certeza de que ela me deixaria ficar. E eu também poderia me matricular na escola comunitária.
- Seria ótimo!
Ele falou de um jeito que parecia totalmente sincero.
- Quais são os planos de Ash?
- Ela ainda não sabe direito o que vai fazer. Mora com uma prima em Londres durante o período letivo, mas a convivência entre as duas parece que não vai nada bem. Talvez ela venha pra cá também. O que você acha?
- Sem problemas.
O que mais poderia dizer? Eu não podia interferir no assunto deles. Tinha de aceitar as coisas de modo como elas são.
- Nem acredito que vamos nos apresentar no festival amanhã. Nunca pensei em fazer uma coisa dessas antes. Espero não ficar dura feito pedra ao ficar de cara com o público.
- O truque é não levar nada muito a sério. Relaxe e entre no clima.
Levantei-me.
- Mamãe me deu de presente uma camiseta incrível. Vou pegá-la.
Corri para o meu quarto e vesti a camiseta. Estava me olhando no espelho para ver se ficava bem em mim quando os pêlos da minha nuca se arrepiaram. Alguém estava me observando.
Só existia uma pessoa capaz de me fazer sentir tanto calafrio.
- Kai! – exclamei, sem me virar.
Capitulo Trinta e Seis
- Não posso viver longe de você, Vanessa- disse Kai, entrando no quarto. – Aliás, bela camiseta. Essas camisetas clássicas valem uma boa grana.
Encostei-me à cômoda e disse:
- A essa altura você certamente já levou tudo de valor que havia por aqui. Aquele vaso também deve ter rendido uma boa grana.
- Deixe de ser chata . Essas coisas não passam de bens materiais. No cômputo geral, elas não têm a menor importância. Estou passando por grandes mudanças de vida.
Ouvi o som de uma van estacionando diante da casa. Kai olhou pela janela.
- Deve ser Emma. Acho que vocês já se conhecem.
- Desde o dia em que você a mandou à livraria verificar sua coleção de discos – respondi. Pensei em Sarah e no quanto ela se sacrificara por ele – Como pôde agir assim?
- Você vai entender quando crescer. Adultos seguem outras regras.
- Do meu ponto de vista, não me parecem coisas de adulto.
Zac subiu as escadas correndo.
- Tudo bem, Vanessa? – perguntou assim que percebeu a situação.
Kai fingiu surpresa:
- Parece que não sou o único a ter um encontro secreto nesta casa.
- Não julgue os outros por si. Trouxemos Tallulah para casa. Ela se perdeu no espaço do festival e teve problemas – expliquei.
- Quer dizer que demora uma hora pra pôr uma gata dentro de casa? É o tempo em que estou aqui, esperando que vocês se retirem – Kai disse isso com um sorriso desagradável.
Alguém bateu à porta.
- Vocês bem que podiam nos ajudar a pôr alguns móveis na van – disse ele.
- Sarah está sabendo disso? – perguntei, Coloquei-me ao lado de Zac e, juntos, obstruímos a passagem pela porta.
- Estou pegando meus pertences aqui, e depois farei o mesmo na livraria.
Eu e Zac nos olhamos. Tínhamos que fazer algo para deter aquele sujeito.
- Estávamos a fim de lhe contar... – comecei.
- Mas, infelizmente, você não estava aqui – completou Zac.
Os olhos de Kai brilharam em pânico.
- O quê? Aconteceu algo com minha coleção de discos?
- Não..., isto é, não com a coleção inteira - disse Zac, lançando-me um olhar significativo.
- Alguns álbuns ainda ficaram na loja, mas alguns já se foram – falei lentamente – Quando você mandou Emma bisbilhotar na livraria, senti que precisava fazer algo.
- Quais não estão mais lá? – perguntou ele, vermelho de ódio.
Emma continuava batendo na porta.
- O que você disse? – perguntei, fingindo que não tinha entendido direito.
- O que vocês fizeram com os meus discos? – gritou Kai, agarrando Zac pela camiseta.
- Deixe-o em paz! – gritei, puxando-o pelo braço.
Emma começou a chamar:
- Sou eu, Kai, abra a porta!
Kai baixou a voz:
- Muito bem, crianças, vocês já se divertiram bastante. Emma não está em condições de passar por esse tipo de coisa.
Em total silêncio, nós três nos voltamos e fomos para o andar de baixo.
Emma parecia muito surpresa e disse:
- Ah, pensamos que vocês estariam ocupados com o festival – ela piscava como se fosse um animal sonolento.
Zac olhou fixamente para ela:
- O que seria muito conveniente para vocês virem aqui roubar as coisas de Sarah.
Emma virou-se para Kai e o puxou:
- Você disse que as coisas eram suas!
- E são – disse ele nervosamente.
Estávamos todos comprimidos na ante-sala, mas ninguém se mexia.
Emma puxava a manga da camisa de Kai como uma criança insistente:
- Você disse que era tudo seu, e que Sarah aprovaria nossa relação. Disse até que ela nos deixaria morar nesse Chalé. Era tudo mentira?
- Fique quita – disse Kai meio grosseiramente.
- Não há mais espaço nessa hospedaria desde que vim pra cá – falei.
- Agora que estamos um pouco mais calmos, voltemos ao assunto dos meus discos – disse Kai.
- Não pensamos neles como bens materiais – comecei.
- Pensamos neles como uma apólice de seguros – acrescentou Zac.
- Contra quem? – Kai estava ficando irritado.
- Contra qualquer outra coisa que desaparecer dessa casa ou da livraria.
Kai coçou o queixo:
- Quero saber quais discos não estão mais lá. Talvez seja alguns fáceis de substituir.
Zac riu e balançou a cabeça:
- Velvet Fogg... muito difícil de encontrar. Leafhound... praticamente impossível.
O rosto de Kai começou a ficar vermelho.
- E onde estão esses discos?
- Muito bem guardados – respondi.
Capítulo Trinta e Sete
Depois que Kai e Emma se foram, Zac e eu pegamos o Land Rover e fomos para a livraria.
- Que bela dupla formamos! – disse ele , rindo.
- Fomos totalmente convincentes – concordei.
- Foi como se a gente estivesse lendo os pensamentos um do outro, como se soubéssemos exatamente o que fazer para confundir a cabeça de Kai.
Saltei do carro e abri a livraria.
- Os nomes daqueles dois discos caíram como uma luva.
Como não tínhamos muito tempo, corremos até a caixa de discos de Kai, e Zac pegou os raros.
- Onde vamos escondê-los?
- É bem provável que ele venha dar uma olhada.
- Olá! – gritou Ava do salão de beleza.
Eu e Zac nos entreolhamos e sorrimos.
Quando voltamos para o festival, já estava escurecendo. Depois de sair da livraria, tivemos de fazer as comprar na mercearia. Por sorte, Isobel ficara ocupada com um jornalista e não reclamou na nossa demora. Depois, tivemos que garantir a Sarah que Tallulah estava ótima e que tínhamos deixado um monte de ração para ela. Como eu não queria aborrecê-la, não mencionei o incidente com Kai e Emma.
Mamãe, Marcus e Aurora estavam vendo um espetáculo de marionetes na tenda do teatro. Lucas e Corbin arrastaram Zac para discutirem a instalação de seus instrumentos de percussão.
Decidi dar uma olhada no festival. Àquela altura, todos os três campos onde se podia acampar, estavam cheios de barracas e trailers. Havia muita gente sentada, comendo, bebendo. Uma mulher ainda jovem e um velho começaram a tocar violino. As pessoas começaram a cantar e a dançar. A noite estava linda.
De repente, me vi sorrindo sem motivo. Pela primeira vez na vida, eu me sentia fazendo parte de algo e sabia que as pessoas que eu considerava legais gostavam de mim pelo que eu era. Eu não era mais um rosto na multidão, nem estava em primeiro plano por tabela.Eu aprendera a lidar com as coisas.
O fato de estar em Netherby, com Zac, fizera de mim uma pessoa confiante. Ter ficado com Joefoi muito divertido, mas era como se eu caminhasse sobre areia movediça. Além disso, eu jamais voltaria a respeitá-lo depois que não ficou ao meu lado.
Senti fome e me deixei levar pelos cheiros que vinham do campo principal, onde ficavam todas as barracas de alimentos e a maior tenda de apresentações. Coloquei meu capuz. Soprava uma leve brisa e, além disso, Eu não queria que Sarah me visse. Eu não conseguiria engolir mais uma de suas “comidinhas para a alma”.
Mas eu nem precisava me preocupar, porque ela estava ocupadíssima, conversando com um grupo de amigos. Era bom vê-la rir novamente. Segui o cheiro delicioso de alho frito que vinha da banca da fazenda Netherby, onde vendiam hambúrgueres orgânicos. Comprei um bem grande e sentei no gramado para devorá-lo.
Quando eu estava engolindo o ultimo pedaço, vi Selan e seu bando perto da barraca de variedades. Sel estava à frente, com pose de estrela de cinema. Olhei para o outro lado. Havia pouco tempo, eu os estaria seguindo e me sentindo muito feliz por ter Sel como amiga. Eles davam risadas altas, de chamar a atenção mesmo, uma coisa completamente deslocada no festival. Justin parecia pouco à vontade e logo se afastou.
Sel me arrumara grandes problemas nos últimos tempos, mas Zac tinha razão quando dizia que eu os superaria. Nada do que acontecera era irremediável. Além disso, se eu não tivesse me metido em encrencas não teria vindo para Netherby. Limpei a boca. Aquela experiência me ensinara muitas coisas. Eu jamais voltaria a fazer o papel de uma assistente pessoal em uma amizade. A partir de agora, qualquer amizade pra mim só teria sentido em igualdade de condições. Era isso ou nada. Eu não aceitaria mais fazer de conta que coisas desagradáveis não existiam, nem admitiria manter uma amizade só para não me sentir sozinha.
Ser amigo significava compartilhar coisas nas quais se acredita, e não fazer o papel de quem só está ali para satisfazer as vontades de uma ou mais pessoas. E, se você não consegue perdoas as fraquezas dos seus amigos, é melhor ficar sem eles.
Sel e sua gangue estavam agora na banca de roupas, e riam de todas as peças. Joe pegou um bolsa de plumas e fez pose. Sem querer, vi-me sorrindo para ele. Joe sempre me fazia rir. Depois, passaram para uma banda de bijuterias.
Se eu não estivesse de olho neles, não teria acreditado. Aliás, quase não acreditei. Num movimento rápido, Sel pegou um colar e começou a examiná-lo, ao mesmo tempo, com a outra mão, enfiou um anel na bolsa de Rebecca. Depois saíram rapidamente, Sel e Rebecca abraçadas uma à outra, às gargalhadas. Assustado, Joe as seguia.
Mas a alegria das duas durou pouco, porque foram rapidamente cercadas por um homem e uma mulher, que mostraram as duas algo que parecia um passe de ônibus. Rebecca e Mia ficaram imóveis. Sel estendeu sua bolsa para ser examinada. Mostrou inclusive a carteira, que devia estar cheia de dinheiro.
Todos olharam para elas, constrangidos, quando foram levadas pelos policiais à paisana.
As pessoas começaram a discutir o que aconteceria com elas.
- Quem deve decidir se vão ou não fazer uma acusação formal é lorde Netherby.
- É só uma garotada.
- Mas tinham dinheiro. E o dono da banca, não conta?
- Mesmo que não sejam detidos, devem ser imediatamente expulsos do festival.
Fiquei perambulando por ali, muito confusa. As lembranças do incidente com o cartão de crédito voltaram com tudo. O modo como Sel me pedira para não dizer nada. Eu pensava que o roubo do cartão era um fato isolado. Que todos nós tínhamos nos deixado levar por um gesto infeliz. Jamais me passaria pela cabeça que Sel transformaria aquilo num hábito. E ela não precisava de dinheiro. Como eu podia ter andado com ela?
Uma buzina altíssima soou bem no meu ouvido. Era um palhaço com pernas de pau.
- Olá! – gritou ele, buzinando outra vez no meu ouvido.
Fingi que achava graça e saí dali o mais rápido que pude.
Sem perceber, cheguei à área onde ficava o teatro. À minha frente, ficava uma pequena barraca listrada. Ouviam-se muitas risadas e palmas lá dentro. Enfiei a cabeça e deparei com uma cena muito agradável. A tendinha estava cheia de gente que assistia um espetáculo de marionetes. Bem na frente estava Aurora, sentada ao lado de mamãe. Marcus dormia no colo dela. Mamãe o embalava enquanto se divertia com o espetáculo. Não dava para entender como Marcus podia dormir com todo aquele barulho.
Fui tomada por uma grande onda de afeto. Sabia que decepcionara mamãe, mas agora era hora de consertar meu erro. O verão estava praticamente no fim; era preciso fazer planos. Eu tinha traçado um rumo para a minha vida. Resolvi que iria estudar em Netherby, onde me esforçaria muito e reconquistaria a confiança de mamãe.
Pensei em mim com Zac , os dois sentados em uma lanchonete estudando. Iríamos ao observatório em Greenwich e ficaríamos com um pé no Hemisfério oriental e outro no Hemisfério Ocidental, como todas as outras pessoas. Eu queria fazer muitas coisas com ele.
Quando estava voltando para a nossa parte do campo, passei por uma “Zona alternativa”. Havia uma grande fogueira no centro, e as pessoas ao redor tocavam tambor e cantavam.
Levada pelo calor do fogo, me aproximei. Sentei o mais perto possível da fogueira, em uma pedra lisa, procurando não chamar a atenção.
Nada de especial parecia estar acontecendo. Algumas pessoas faziam massagens. Uma mulher lançava pedras no chão, como se fossem dados, e conversava com alguém. Imaginei que fosse uma cartomante.
-Saía imediatamente do meu lugar! – disse uma voz a meu lado. Quando olhei, vi uma mulher muito alta, com uma longa capa de lã.
- Desculpe – disse, levantando-me. – Não sabia que o lugar era seu.
- Pode ficar – respondeu ela, e depois deu um risinho estranho. – Não se importe comigo. Meu nome é Cassiopéia, Cassie para os íntimos, e não passo de uma velha ranzinza.
Sentou-se ao meu lado. O ar ficou impregnado de seu perfume fortíssimo. Eu estava desesperada para sair dali, mas não queria magoá-la.
- Como a constelação – disse, pensando que Zac se orgulharia de mim pela lembrança.
- Espero que você tenha vindo para o circulo de cura. Já deveria ter começado, mas tudo sempre atrasa um pouco. A menos que, para você, seja coisa de hippies – disse ela dando outro risinho.
- Não, não vim para o círculo de cura. Estava andando a esmo.
- Então você foi convocada – disse, virando-se para mim e olhando-me bem de perto – Você tem uma alma bela e forte – deu um tapinha na pedra em que eu estava sentada. – Você veio curar alguém que ama.
Uma imagem de Zac passou pela minha cabeça.
Cassie acenou com a cabeça como se confirmasse meus pensamentos.
- O garoto. Posso sentir o sofrimento dele.
Senti um calafrio. Tinha certeza de que ela fez uma suposição e acertou em cheio. De qualquer modo, aquilo me deixou meio maluca. Olhei para os lados para ver se achava alguma rota de fuga, mas havia muito mais gente àquela altura, e eu estava presa ali.
O jeito foi ficar. Afinal. Que mal poderia me fazer um círculo de cura?
***
Ow , eu tenho que chorar ... so faltam duas postagens para ACABAR ! A historia vai até o capitulo 43 , mas em cada post eu coloco 3 capitulos , ou seja , proxima vez posto o ... 38 , 39 , 40 e depois ... 41 , 42 , 43 e Epílogo , que é o final da historia mas é uma parte pequena :)
Vou sentir saudades ! :(
Amor eterno Zanessa , Aninha , Ashelyzinha
Beijos ! Até o proximo ... Jéeehh comenta !!! hashuahsua
Sei que não posto a muito tempo e que estou em falta com esse blog , mas eu tenho estado muito atarefada e realmente não deu :/ Espero que me entendam e não deixem de ler ! :) Como bonus , um capitulo bem grande !
Capítulo 32
Tarde demais. Quando cheguei à árvore, nem sinal de Zac .
- Você bem que podia ter me dado uma chance! - gritei para o espaço vazio.
Quando voltei, vi que havia um pedaço de papel preso por uma pedra no muro em frente ao chalé, onde Zac costumava sentar. Era uma página arrancada de seu caderno de astronomia. Na página em branco estava escrito:
Entendo, e você deve estar certa em terminar tudo agora.
Para nós, é difícil demais continuar juntos.
Obrigado pelo que houve de bom.
Com amor,
Zac
Dei meia-volta e desci a colina correndo. Eu precisava encontrar Zac e explicar que só me atrasara devido à chegada de mamãe, que não estava rompendo com ele.
Corri o mais rápido que pude até o solar Netherby, mas a estrada que levava à casa estava cercada, e seguranças com ar de poucos amigos montavam guarda na parte externa. O festival transformara aquele lugar tranqüilo em uma cidade tumultuada.Eu precisava dizer a Zac que ele estava enganado. Não haveria tempo para conversar quando já estivéssemos com a banda no festival. O sino da igreja repicou onze badaladas. Eu precisava encontrá-lo, e logo!
Enquanto eu tentava passar pelos carros, a janela de um carro velho e surrado se abriu e uma voz gritou:
- Vanessa !“Essa não!”, pensei. Será que essa noite vai piorar?
Dentro do carro, Selena , Joe e Rebecca.Sel gritou:
- Conseguimos! Levamos duas horas pra chegar aqui! Rebecca disse:
- O carro quebrou e tivemos de ficar horas esperando ajuda.
Joe esticou a mão e tocou meu braço:
- Que bom vê-la de novo, Vanessa . Muito obrigado pelo e-mail.
Rebecca parecia um pouco mal-humorada, mas disse:
- Ficamos sabendo que você arrumou trabalho numa barraca de comida! Deve ser muito divertido!
Só que o tom em que falou na verdade significava: “Eu preferiria ter todos os meus dentes arrancados a alicate”.Como eu não queria que me aporrinhassem com a historia de minha apresentação no festival, deixei que aqueles esnobes descobrissem por si próprios na hora do show.
- Já encontrou outra escola? – perguntou Rebecca, que estava evidentemente a fim de me provocar o quanto pudesse.
Joe parecia constrangido, Selena olhava de lado.O irmão de Rebecca, Justin, que dirigia o carro, esticou o corpo para me ver melhor, e disse:
- Ora, vejam, quer dizer que esta é a garota que foi às compras como cartão de créditos da professora... Que loucura!- Estamos loucos para conhecer Lucas – disse Selena .- Lucas é apenas um amigo – respondi secamente.
Selena tinha o dom de me irritar, de me deixar vulnerável. Antes eu parecia insignificante. Sel nunca mais controlaria minha vida.Joe sorriu. Era o único que parecia feliz em me ver.
- encontraremos você lá – disse Sel .
- Não se eu encontrar vocês primeiro – respondi.
Todos riram, mas eu estava falando sério. O encontro com eles me fez sentir mal, triste. Era como se a amizade deles fosse um par de sapatos que já não servissem mais.
Mamãe estava tão ocupada com as novidades de Sarah que nem percebeu a hora que eu cheguei. Ela até me emprestou o celular para eu ligar paro o solar Netherby. Dei a desculpa de que precisava fazer uns acertos de última hora.
O telefone só dava sinal de ocupado.Minha cabeça girava. Zac estava pensando que eu romperia com ele. Ele devia me achar fútil e vazia por desistir tão facilmente assim. E Ash seria a primeira a apoiar a idéia.
Mamãe estava preocupada demais com Sarah para perceber minha angústia. Além do mais, ela atribuiria minha inquietação a minha apresentação do dia seguinte.
Quando fui deitar, o sino da igreja badalava meia-noite. Meu corpo ficou tenso. Tudo parecia perdido.Marcus estava deitado num colchão no chão do meu quarto. Também não conseguia dormir.
- Sentimos sua falta na Flórida – disse ele. – Mamãe até chorou por você não estar conosco.
- Também senti saudades de vocês – respondi. – Mas os postais que me mandaram me fizeram sentir como se eu estivesse lá.
- Isso na sua mão é uma carta de amor? – perguntou Marcus em tom de provocação.Eu me esquecera de que ainda estava segurando o bilhete de Zac.
- Algo assim – respondi baixinho.Fechei os olhos e tentei dormir. No dia seguinte, eu tentaria resolver toda a confusão.
Todos tivemos de levantar cedo porque Sarah já começara a preparar suas “comidinhas para a alma”. Ela parecia bem mais disposta. Parece que ela e mamãe vararam a noite conversando. Marcus estava pintando um cartaz para a tômbola de poesia.
- Leve roupas bem quentes se não quiser congelar na barraca – disse mamãe.
- Não quando se vai dormir com três garotos suados e uma garota – respondi.Mamãe levantou uma sobrancelha:
- Não sei se estou totalmente de acordo com isso...
Mas Sarah disse:
- Já esqueceu que uma vez dormimos numa barraca com seis garotos? Na maior inocência?
Mamãe suspirou:
- Estávamos em segurança justamente porque eram muitos...
- Os garotos daqui são legais – disse Sarah. – Um deles é filho do lorde Netherby.
- E Ash vai estar lá também – acrescentei. – Ela cuidará de mim.
Mamãe levantou a outra sobrancelha. Senti-me um pouco reconfortada por saber que pelo menos veria Zac mais tarde.
- Acho que quem ganhou o coração de Vanessa foi o Lucas – disse Sarah com um sorriso.
Eu e mamãe fingimos enfiar o dedo na garganta.
- Somos todos amigos – insisti.
- Mas é evidente que tanto Lucas quanto Corbin estão caidinhos por você – continuou Sarah.
- Evidente pra quem? – perguntei.
- Para qualquer um que tenha olhos pra ver. O único que não se interessa por você é Zachary
- Você é tão esperta... – falei. – Como sabe disso?
- Minha intuição poética – disse Sarah com um sorriso forçado.
Capítulo 33
As pulseiras de plástico que Lucas nos deu funcionaram como um talismã. O portão se abriu assim que eu mostrei a minha. Eu estava louca pra ver Zac . Como ele não tinha celular, liguei novamente para o solar Netherby, mas o telefone de lá continuava dando sinal de ocupado. Parecia que o mundo inteiro queria falar com lorde Netherby sobre o festival.
Todos os caminhos que levavam a Netherby estavam demarcados por cercas metálicas, e havia seguranças carrancudos e uniformizados por toda a parte.A manhã dava claros sinais de que o dia seria quentíssimo. O céu estava azul, brilhante e sem nuvens. Todos os campos encontravam-se cheios de barracas. Ouviam-se gritos e xingamentos dos operários que erguiam o palco principal.Eu devia estar eufórica por fazer parte daquilo, mas em vez disso me sentia minúscula e infeliz.
Parecia que eu e Zac tínhamos o mundo contra nós. Naquela altura, ele já se convencera de que eu rompera com ele. Ele já estava certo de que eu o deixara.
- Dentre todos os campos deste mundo você tinha de andar justamente pelo meu! E ai, velha amiga?
- Julius! – exclamei, feliz por encontrar um rosto conhecido.
- Consegui localiza-la no meio de todo esse bando de desocupados – disse ele, apontando para vários grupos que já estavam se instalando nas mediações. – Estou com as fotos aqui. Troquei umas idéias com o fotógrafo de casamentos de Netherby ele me deixou usar a câmera escura ontem à noite.
Estendeu-me um envelope pardo com muitas fotos em preto e branco.
- Ainda estou em forma, não acha? – perguntou Julius.
- As fotos estão maravilhosas! – respondi.
Uma delas, em particular, chamou minha atenção. Eu estava de pé num canto do balcão, Lucas e Ava dançavam no centro, Corbin fazia pose e Ash estava bem ao lado de Zac . O engraçado de tudo isso era que Zac olhava pra mim, e eu, do balcão, olhava pra ele.
Julius pigarreou:
- Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras.
Devolvi a foto.
- Sou um velho tolo que já passou muitos anos no doce traiçoeiro caminho dos prazeres, mas juro que acredito no amor – disse Julius.
Eu esperava que ele viesse com algum trocadilho ridículo, mas dessa vez ele se calou. Disse apenas:
- Vou levar essas fotos ao departamento de publicidade, que em tempos normais é a cozinha do solar Netherby.
- Poderia me fazer uma grande favor? – pedi.
Julius fez que sim.
- Diga a Zac que preciso vê-lo imediatamente.
- Seu desejo é uma ordem – Julio fez uma reverencia, e eu lhe dei um abraço.
Sentei-me debaixo de uma arvore na extremidade do campo e esperei.O sol ia alto no céu. Fechei os olhos e, por alguns minutos, refiz minha tragetoria de vida.Em meu primeiro devaneio, a profª Rose levara seu cartão de credito com ela naquele dia todos nós fomos pegos em sua sala nos mandaram para a diretoria, onde Selena foi tão grosseira com a diretora que foi expulsa e saiu da escola aos berros e dando pontapés.
Meu segundo devaneio dizia respeito à descoberta de uma vacina contra o HIV. A isso se seguiu um sonho fantástico sobre o sucesso estrondoso da banda Goats in a Spin. Imaginei Londres tomada pelas fotos de Julius, entrevistas coletivas muito loucas em todas as revistas de música indie.
- Vanessa?
Entreabri os olhos e vi Joe sentado ao meu lado.
- Como vão as coisas? – perguntou.
- Como você me encontrou?
Ele sorriu e disse:
- Você brilha na multidão, Vanessa .
Joe não perdera o charme nesse tempo que não nos vimos.Sorri, endireitei o corpo e comecei a olhar ao redor ansiosamente.
- Onde está o seu fã-club? Ou serão seus guarda-costas? – perguntei.
- É disso que gosto em você, Vanessa. Além de ser uma pessoa incrível, tem um grande senso de humor.
Abanei o ar.
- Todo esse calor e ainda nem é meio-dia.
- Escute, Vanessa. Sinto muito pelo que aconteceu. Foi fantástico você não ter dedurado a gente. Eu faria o mesmo por você se as nossas posições fossem invertidas.
Sorri meio sem graça:
- Aí esta sua oportunidade, Joe. Se você realmente parar e pensar, verá que “as circunstâncias” estão de fato invertidas. Estou levando toda a culpa. Minha reputação está em farrapos, e você poderia me tirar dessa com meia dúzia de palavras.
Ele olhou para mim com seus grandes e profundos olhos castanhos, e por um segundo eu pensei que gostaria de amá-lo. Lembrei-me de como me senti quando ele me beijou pela primeira vez. Recordei o quanto nos divertimos andando pela cidade, fazendo brincadeiras tolas e rindo muito. Joe era uma companhia divertida. Se eu reatasse com ele, as coisas poderiam voltar a ser o que eram.
Minha vida seria muito mais fácil se eu ainda o amasse, se não tivesse me apaixonado por Zac .Depois pensei nas outras ocasiões em que as coisas não tinham sido tão boas e disse:
- O problema, Joe , é que se os papéis estivessem invertidos, eu não esperaria que você assumisse a minha culpa. Isso não seria correto. Mesmo morrendo de medo, eu teria assumido minha responsabilidade. Minha consciência me obrigaria a isso.
Joe aproximou-se. Respirei fundo. Ele continuava lindo!
- As coisas não são simples assim, Vanessa. Tive problemas em outra escola. Também fiquei com uma reputação muito ruim. Ao menor indicio de novas encrencas, minha mãe deixou claro que eu seria imediatamente mandado para uma escola na Nigéria.
- Se tivéssemos ficado juntos e explicado as coisas, talvez ela não fizesse isso. Tenho certeza de que sua mãe valoriza a honestidade. Além do mais, você e Sel não prometeram esclarecer as coisas no momento certo?
Joe fez que sim.
- Mas o momento certo nunca vai chegar, não é?
Joe estava visivelmente incomodado.
- Vanessa, quer parar de me por contra a parede? As coisas não ficaram tão difíceis pra você, ficaram?
Pensei em minha vida em Netherby: Zac, a banda e o trabalho na livraria... e sorri.
- Na verdade, ficou bem melhor do que antes.
- Então vamos nos beijar e fazer as pazes. Sem rancores? – ele me tomou pelo braço e aconchegou-se todo em mim.
Num primeiro impulso, afastei-me, mas Joe riu e me puxou com mais força ainda.Que mal poderia fazer um simples beijo de adeus?
Capítulo 34
Não se dizer há quanto tempo Zac estava ali parado, mas a julgar pela expressão de seu rosto, tempo suficiente para chegar à conclusão errada.
- Julius disse que você queria me ver – disse ele. – Mas não posso demorar. Lucas precisa de ajuda. É este o seu amigo de Londres?
Não gostei do modo como ele enfatizou a palavra “amigo”, como se significasse muito mais que isso.
- Este é Joe . Ele chegou com Sel e alguns colegas – expliquei.
Virei-me para Joe:
- Este é Zachary . Participamos da banda que vai tocar amanhã.
Joeckson ficou surpreso:
- Minha garota numa banda! Vanessa , você é uma caixa de surpresas – disse isso e me abraçou.
- Não sou sua garota – respondi rispidamente, afastando-o de mim. Mas já era tarde.
Zac estava indo para o outro lado do campo.Joe riu e me abraçou novamente, mas desta vez deixei claro que o queria longe de mim. Queria mantê-lo a distância porque sua proximidade era perigosa.
O olhar de Zac deixara isso bem claro. Agora, eu tinha ainda mais explicações a dar. Por que fui ceder àquela aproximação com Joe ?Ao longe, vi Aurora correndo em nossa direção. Ela passou primeiro por Zac, que se virou e apontou em nossa direção. Ele ficou parado e Aurora continuou correndo.Quase sem fôlego, ela disse:
- Vanessa, venha depressa! Sarah está precisando de ajuda! Corra!
Sem ser chamado, Joe também saiu correndo comigo.Aurora pegou Zac pelo braço quando passou por ele.
Meu primeiro pensamento foi: Kai aparecera e as coisas tinham ficado pretas. Quando cheguei, porém, vi um monte de gente ao redor de uma árvore, olhando para cima. Marcus, embaixo da árvore segurava seu casaco aberto.
- É Tallulah (A gata da Sarah). Ela nos seguiu até aqui, assustou-se com a multidão e subiu na árvore em pânico.
Olhei para cima e lá estava Tallulah, bem no topo de um grande carvalho, equilibrando-se num galho fino demais para o seu peso.
- Preciso tirá-la daí antes que um desastre aconteça – choramingava Sarah.
- Tudo aquilo que sobe, desce – disse Joe, bem-humorado.
- Seu namorado tem razão – disse Zac grosseiramente.Suspirei, impotente.
Ele deveria confiar mais em mim em vez de pensar sempre no pior. Eu confiava nele e tolerei a presença de Ash agarrada a ele. Ele não deveria ter chegado a conclusões tão rápidas quando me viu com Joe . E deveria ter esperado por mim naquela noite em que marcamos encontro na casa da árvore.
Agora, estávamos ambos magoados.Tive um estalo e me pus imediatamente em ação.
- Por que ficam todos aí parados? Vou subir lá e pegar a gata.
- Vou ser seu amparo – disse Marcus, abrindo mais ainda seu casaco.
- Vou ajudar – disse Aurora, tirando sua malha de lã e segurando-a bem aberta ao lado de Marcus.Joe riu novamente e disse:
- Isso é loucura, cara.
Mas eu não estava ouvindo. Continuei subindo e procurando neutralizar uma voz que martelava na minha cabeça, perguntando sem parar: “E agora, o que vai fazer?”, enquanto eu subia mais e mais, tentando alcançar o galho de Tallulah.
Escorreguei algumas vezes, quebrei alguns galhos, mas pelo menos eu estava no alto, como se tivesse deixado meus problemas pra trás por algum tempo.Se imaginei que Tallulah me agradeceria por aquele ato de heroísmo, me enganei redondamente. A primeira coisa que ela fez foi rosnar e me arranhar.
Depois, encolheu-se toda como se estivesse preparando um salto mortal.“Gatos não são suicidas”, pensei e comecei a falar com ela com a mesma vozinha patética que Sarah costuma usar.Ela pareceu acalmar-se. Passou para uma parte mais grossa do galho e fechou os olhos. Tentei ignorar a dor do arranhão.
- Continue falando com ela – disse Zac . Ele subira pelo outro lado e estava bem atrás de Tallulah.
- Zac, não sei o que fazer agora. Estou apavorada – falei baixinho.Ele sorriu.
- Eu também, mas temos de dar a impressão de que sabemos o que estamos fazendo. Não podemos decepcionar nosso público.
Engoli seco, olhei para as pessoas lá embaixo e tentei controlar a vertigem que sentia.Uma multidão se formara, e reconheci algumas vozes no meio de toda aquela confusão. Ali também estavam Lucas , Corbin e Selena.
- Acho que vou vomitar – disse.
- Calma, tudo vai ficar bem.
- E se só piorei as coisas? E se assustei Tallulah e ela resolver pular? Que horror!
- Não perca a calma, Vanessa . Não há tempo para sentir medo – respondeu Zac tirando a camiseta.
- Acho que um striptease não vai ajudar... – disse, tentando me concentrar naquele lindo peito para ver se me acalmava um pouco.
Zac fez que não ouviu e disse, bem sério:
- Vou contar até três e agarrá-la por trás com a camiseta, para impedir que ela use as garras. Continue falando com ela.
Fiz outra vez aquela vozinha patética.
- E aí, gatinha nojenta, seu monte de sarna, o que lhe deu na cabeça? Quer ficar morando na árvore, belezinha?
Zac agarrou-a. depois de dar uns trancos, ela se acalmou e permitiu que ele a enrolasse na camiseta. Ele então desceu, segurando-a firme.Os dois olharam para mim, ainda me equilibrando lá em cima. Tallulah piscou e Zac disse:
- Vamos, Vanessa , você consegue!
Ele não esperou minha resposta e se afastou. Todos aqueles sentimentos de medo por Tallulah e de raiva do mundo se evaporaram. Estava perdida mais uma chance de poder ficar com Zac. Agora eu não passava de uma geléia oscilante, presa em cima de uma árvore e com um grande público de olho em minha humilhação. Ouvi Sel dizendo:
- Ela não consegue descer sozinha.
Rebecca não parava de rir.Aquilo me irritou tanto que serviu de estimulo. Escorreguei pelo tronco e acabei caindo com um baque surdo no chão. Sel correu para me abraçar.
- Que gesto de heroísmo, amiga! – disse ela num misto de surpresa e incredulidade.
- Tudo bem com você, Vanessa? – pergunto Lucas preocupado.
- Tudo bem , Lucas ! - respondi.
Zac e os outros já tinham se perdido na multidão.
- Você é louca de arriscar seu pescoço por uma gata idiota - disse Joe.
- E ainda por cima chamada Tallulah! Que nome é esse! - acrescentou Rebecca.
- Lucas ! Prazer em conhecê-lo. Vanessa me contou tudo sobre vocês - disse Mia, piscando sem parar para um confuso Lucas, que certamente não entendeu nada.
- Entrou algum cisco em seu olho? - ele perguntou a Sel , tirando do bolso um lenço amarrotado.De repente vi mamãe parada atrás deles.
- Onde está Tallulah? - perguntei.
- Sarah e Aurora a levaram para o solar. Zac acha que eles têm um cesto para gatos no porão.
Lembrei-me de Curio, o gatinho que vivia na casa da árvore. O que teria acontecido com ele? Mamãe e eu saímos dali.
Depois de verificar se eu estava bem, ela disse:
- Que idéia foi essa de convidar Sel para o festival?
- Eu não a convidei, mamãe!
O que havia de errado comigo que todo mundo sempre chegava à conclusão errada?
***
Obrigada pelos comentarios ! Vou tentar postar sempre :) A historia ja esta acabando e assim que acabar é ... acabou rsrsrsrs
Beijos
Cáh
Capítulo 30 - Esclarecendo as coisas
Era fim de tarde e a rua principal fervilhava de gente falando sobre o festival. Pelo canto dos olhos, vi alguém que me pareceu ser Selena , mas foi só um alarme falso. Encontrá-la naquele momento era a última coisa que eu queria.
Na verdade, eu estava a fim de trabalhar um pouco na livraria. Ainda faltavam muitas horas para o ensaio, e eu precisava me ocupar. As revelações sobre Zac , e depois sobre Ash , piraram minha cabeça.
Eu pensava em quantos outros garotos não seriam HIV-positivos e nos problemas que estariam tendo. Também me dei conta de que não sabia quase nada sobre o assunto.Minha cabeça estava cheia de perguntas. Qual era a diferença entre HIV e Aids? Ash me disse que eram coisas diferentes. O que acontecia se Zac se cortasse e eu entrasse em contato com o sangue dele? Eu sabia que beijá-lo não tinha problema, mas será que ele poderia fazer amor?
Senti-me boba por ter tido ciúme da amizade entre Zac e Ash . Havia partes da vida dele que só Ashley podia entender, e eu seria sempre uma espectadora. Não foi à toa que ele riu muito da confusão estúpida em que me meti com Sel e Joe . Ele certamente trocaria meus problemas pelo dele sem pestanejar.
A caminho da livraria, comecei a me sentir mais forte. “Posso e vou lidar com isso”, disse a mim mesma. Sabia que Zac não faria nada que me expusesse a risco. Precisava parar de pensar em mim mesma. Onde ele estaria naquele momento? Como estaria se sentindo? Gostaria de afagar seus cabelos e apertar sua mão para que eles soubesse que estava tudo bem. Eu não abriria mão de meu namoro.
Quando entrei na livraria, Julius me olhou com cara de poucos amigos e levantou as sobrancelhas, fazendo-me um sinal que eu ainda tentava decifrar quando vi o vaso sobre o balcão. Por trás dele, sentada, de cara feia, roendo as unhas, estava tia Sarah.
- Então você o achou – falei.Sarah me fulminou.
- É só isso que você tem a dizer? Bem, pelo menos não está fingindo surpresa!
- Não – respondi. Eu ia lhe contar, mas aconteceram coisas que me fizeram esquecer.
Sarah balançou a cabeça e se pôs a gritar:
- Você é mesmo incrível! Como pode ser tão fria diante de uma coisa dessas?! Você sabia o quanto esse vaso significa para mim.
Levantei a voz no mesmo tom:
- Sinto muito, eu deveria ter lhe contado antes.
- Por que fez isso, Nessa ? Depois de tudo o que fiz por você! Você parece não estar nem aí! Isso a fez sentir algum tipo de emoção? Eu lhe teria dado todo o dinheiro que tivesse...
- Tia Sarah, pode parar! Não roubei seu maldito vaso! Eu o vi ontem na vitrine e ia lhe contar. Tinha certeza de que se tratava do mesmo vaso. Quer dizer, imagino que neste lugar não existam tantos vasos horrorosos iguais a esse.
- NÃO ME VENHA COM PIADINHAS! – berrou Sarah.
- Vou dar uma volta! – disse Julius, a caminho da porta.
- FIQUE AQUI! – ordenou Sarah. Julius encolheu-se todo. Sarah voltou-se para mim. Seu rosto estava lívido.- Julius vai nos levar ao antiquário e você vai se desculpar com Angie, a proprietária, por ter lhe vendido um vaso que não lhe pertencia. Quem o comprou foi a assistente dela, que está trabalhando esta tarde. Lucy vai reconhecer você, e então Angie talvez queira chamar a polícia, e eu não vou mover uma palha para evitar que ela o faça. Angie não quer que se espalhe nenhum boato de que seu antiquário vende peças roubadas. Trate de ir se preparando para enfrentar as conseqüências de seus atos.
- Por que você está tão convencida de que fui eu? – perguntei, com ódio.
- Lucy diz que comprou o vaso de uma garota de cabelos longos e castanhos, com sotaque londrino – Sarah estava vestindo o casaco. – Não vou fazer como minha irmã e varrer toda a sujeira para baixo do tapete. Desta vez, você vai ter de encarar a situação.
- Muito bem – falei. Eu sabia que, no fim das contas, não seria eu que sairia magoada da história. Quer dizer que Kai andava mandando sua nova namorada encarregar-se de alguns servicinhos. Ele a mandara vender o vaso de Sarah e verificar se sua preciosa coleção de discos estava intacta.
No carro, tentei ser mais delicada:
- Por favor, Sarah, acredite, não fui eu.
Ela aumentou o volume do rádio do carro para abafar minhas palavras.Tentei novamente quando já estávamos chegando ao antiquário.
- Não precisamos fazer isso – pedi.Sarah me ignorou e entrou quase marchando na loja. Por uma fração de segundo, pensei em assumir a culpa pela venda do vaso, para impedir que ela descobrisse a dolorosa verdade daquela maneira. “Encarar a verdade não será exatamente o que ela imagina”, pensei ao entrar no antiquário.
Angie era uma mulher alta e bem vestida. Ela e Sarah se beijaram. Angie foi muito simpática com Sarah, mas olhou para mim como se eu fosse um traste qualquer.De uma porta nos fundos da loja surgiu uma garota carregando uma pesada bandeja de chá. Lucy olhou-me de cima a baixo: - O cabelo tem o mesmo comprimento, mas a garota que me vendeu o vaso tinha cabelo castanho avermelhado , e não castanho escuro.
- Tem certeza? A cor do cabelo pode mudar conforme a luz – insistiu Angie.Tive a impressão de que ela ficou decepcionada ao perceber que eu não era a tal garota.
Angie serviu o chá. Lucy estendeu-me uma xícara de porcelana muito delicada, olhou-me de novo e disse:
- Ah! Esqueci de dizer que havia um homem esperando por ela num carro. Ele tinha cabelos pretos, longos e ondulados. Era meio parecido com um velho roqueiro.
Sarah retraiu o corpo como se alguém a tivesse chutado, mas recuperou-se em seguida.
- Kai deve ter pegado o vaso e se esqueceu de me dizer – ela engoliu o chá quente de um só gole e levantou-se para sair.
Angie olhou para Lucy de cara feia:
- Você nunca me disse que havia um homem com ela.
- A senhora não perguntou – respondeu Lucy com ar desafiador. Tive a impressão de que a assistente não estava satisfeita com seu trabalho.
Sarah fingiu que nada daquilo tinha importância.
- Talvez seja mais uma das excentricidades de Kai. Em geral, esse tipo de coisa significa que ele está passando por uma excelente fase criativa.
Meus olhos se encheram de espanto. A caminho da porta do antiquário, virei-me, olhei para elas e disse:
- Aceito os humildes pedidos de desculpas de todas vocês.
Lucy deu uma risadinha e disse:
- Não poderia ter sido você, pois a garota que vendeu o vaso estava grávida. Opa, acho que também me “esqueci” de mencionar isso!
Capítulo 31
Seria aquilo a paz e a tranquilidade do interior que todo mundo vivia elogiando? Aquele lugar era cheio de surpresas. Em comparação com aquilo tudo, viver em Londres era como viver numa clínica de repouso.
Fiquei imaginando qual seria a impressão de Joe e Sel .
Eu gostaria que eles não viessem. Não estava nem um pouco a fim de ficar ouvindo os dois dando risadinhas irônicas de tudo e de todos. Quem sabe o primo de Rebecca desse um furo e pulasse fora no último minuto?
Dessa vez, Sarah não foi para a cama chorar. Gostaria que chorasse, surtasse ou dissesse qualquer coisa, mas ela apenas se sentou na sala. Seu rosto parecia pedra. Eu não conseguia imaginar o que ela estaria sentindo. Não tivera filhos porque Kai não os queria. Agora, ele a estava trocando por uma mulher mais jovem que ia ter um filho dele. Quão dolorosa seria uma coisa dessas! Além do mais, ele a estava roubando!
Cerrei os punhos só de pensar naquele sujeito. Até Tallulah estava assustada. Corria pela casa feito louca.A chuva passou e o sol voltou a brilhar, deixando pequenas ondulações avermalhadas no céu. O episódio do vaso me distraíra de meus problemas por algum tempo, mas já estava na hora do ensaio.
Fiquei pensando no que os outros diriam se Zac não estivesse lá e eu precisasse dar uma explicação . Ou a explicação caberia a Ash ?
Servi chá a Sarah.- O ensaio não vai demorar muito. Quando voltar, vou lhe trazer batatas fritas. Você vai ficar bem?
Sarah não se moveu. Era um alívio sair de casa por algum tempo.Corbin e Lucas já estavam descarregando a van quando cheguei à livraria. Corbin deu um sorriso meio irônico.
- Nessa , a última da galer... Ah... o que quero dizer é que você é a última do grupo a chegar. Mas não se preocupe, porque Julius nos deixou entrar .Lucas reclamou:
- Não sei o que é pior: gíria de hip hop ou frases que nunca terminam. Vamos começar daqui a alguns minutos.Olhei ao redor.
- Todos a bordo?
Ele fez que sim. Isso significava que Zac finalmente voltara do seu encontro em Londres.
- Ash está se trocando. Zac está ajudando Julius com o equipamento fotográfico. Pediram fotos nossas.
- E é Julius que vai tirá-las? - perguntei, preparando-me para dar de cara com Zac . Eu não sabia como agir. Se eu adotasse um comportamento frio, ele pensaria que estava tudo acabado entre nós e, se fosse uito amável, os outros poderiam ficar desconfiados.Lucas se aproximou.
- Tudo legal com você, Nessa? Você não se incomoda que Julius tira algumas fotos, certo? Ele fo incrível nos velhos tempos, quando forografava astros e estrelas do rock e modelos.
- Por que não estou surpresa? - sussurei, olhando para meu jeans amarrotado e para a mancha de comida na minha camiseta. Se eu me mostrasse irritada, isso disfarçaria minha reação ao fato de ver Zac novamente.
- Estou vestida para um ensaio, não para uma sessão de fotos - respondi.
As pessoas que pensassem que sou fútil e banal.Ash apareceu de vestido preto, um pequeno chapéu de caubói e uma corrente no pescoço. Estava irada!
- Você está muito bem - disse Zac com uma voz tão tranqüila que me assustou. Depois acrescentou, sussurando:- Antecipei minha volta de Londres. Fiz o que tinha de fazer e decidi levar minha vida adiante.
Ash estava se comportando de um jeito maníaco e parecia determinada a monopolizar a atenção de Zac . Pela primeira vez, isso não me causou problema. Eles precisavam um do outro.
Porém, quando fui tomar água, ele se aproximou e perguntou baixinho:
- Leu a minha carta?
Fiz que sim.
- Vamos nos encontrar hoje à noite no mesmo lugar, uma hora mais tarde.
Concordei. Eu estava prestes a tocá-lo, mas ele se afastou de propósito. Depois, tudo virou uma loucura, enquanto Julius instalava seu equipamento fotográfico.
- Ajam com naturalidade - disse ele enquanto ligava um refletor que nos deixou momentaneamente cegos.
Ash agarrou-se a Zac , Corbin fez poses estranhas, Lucas parecia assustado, e eu tentei desaparecer em segundo plano.Por trás da câmera, Julius transformou-se num monstro que gritava coisas estranha para nós, desde "fromage, meus amores, digam fromage!" até "amem a câmera, apaixone-se pela câmera - e agora odeiem a câmera, odeiem a câmera".
Ava chegou muito bem vestida, mas enfeitada demais, com um top reluzente e quilos de maquiagem. Fez uma cena ridícula, fingindo surpresa por estarmos sendo fotografados e fingiu também que relutava em vir juntar-se a nós.
Deu tempo de repassar toda a sequência do repertório e tentamos tocar todas as canções, mas tinhamos consumido toda a nossa energia posando para Julius.Quando nos preparávamos para sair, Lucas deu a cada um os crachás para o festival. Eram pulseiras de plástico.
- Não vão perdê-las, pois sem elas não entram - disse ele. - Além disso, teremos um espaço só para nós na área dos músicos, perto do palco, onde podemos acampar e usar o espaço para guardar nossas roupas e equipamentos.
- Não tenho barraca - respondi.
- O vigário vai nos emprestar uma. Dormiremos juntos nela - disse Corbin. - Para que todos os fãs e penetras possam vir festejar conosco depois do show. Como só vamos tocar no sábado, podemos passar a sexta-feira nos preparando e ouvindo as outras bandas, ou fazendo qualquer outra coisa.
- Deve estar sonhando, Corbin. Não vamos compartilhar uma barraca com vocês, não é verdade, Zac ? - perguntou Ash .Mas Zac não estava ouvindo.
Ele olhou para o relógio, vestiu rapidamente o casaco e saiu. Dessa vez, pelo menos, fez um breve aceno de despedida. Ash o seguiu imediatamente.Lucas suspirou:
- Sou vocalista. Eu é que deveria ser desagradável e temperamental.Passei a mão pelos cabelos dele:
- Não se preocupe, vamos sair para comer.
Eu agora entendia as mudanças de humor de Zac.
Lucas e eu voltamos juntos para casa, parando no caminho para comprar as fritas que eu prometera a Sarah. Ele estava estranhamente quieto, e eu também pouco falava. Imaginei que ele estivesse nervoso com o festival, e eu sentia a cabeça atordoada ao pensar em Zac e no que diríamos um ao outro. Metade de mim estava agitada. A outra, apavorada. A qualquer momento eu podia travar.Então eu disse:
- Você sabe, é como se diz em teatro: mau ensaio geral, maravilhoso espetáculo!Lucas deu um sorriso forçado:
- É muito bom ter você cantando na banda. Será que podemos sair juntos quando voltarmos de Londres?Levei um susto. Lucas me convidou para sair? Ele percebeu e retraiu.
- Quando digo sair junto quero dizer ouvir algumas outras bandas de anti-folk, para que você possa conhecê-las melhor. E talvez comer uma pizza depois do show.
- Seria ótimo - respondi. Eu não queria ferir os sentimentos dele, e então acrescentei:- Espero que a gente saia muitas vezes, Lucas . Você tem sido um grande amigo aqui em Netherby. Não quero perdê-lo de vista.
Ele entrou rapidamente em casa.Sarah ainda estava sentada na sala.
- Eu trouxe fritas - disse, já abrindo a embalagem. Comprara também uma torta de peixe para Tallulah, e coloquei-a no pratinho dela.
- Não estou com fome - disse Sarah.Em desespero, comecei a falar confusamente sobre as fotos, o ensaio... qualquer coisa que pudesse pôr fim ao terrível silêncio.
- Sua barraca de comida já está pronta? Posso ajudá-la. E a tômbola?Sarah endireitou o corpo na poltrona e disse:
- Kai vai estar no festival, e então esclarecemos esse mal-entendido. Preciso deixar tudo pronto. Não há tempo a perder.Em seguida começou a andar freneticamente pela sala. Não sei o que era pior, se aquela atividade histérica ou a mobilidade total.
Subi para o meu quarto. Precisava pegar as minhas coisas para o festival. Eu não tinha pensado o que usar no palco. Ash certamente já estava com tudo pronto. Ela me parecera extremamente atenta a cada movimento de Zac. Não desgrudou os olhos dele só um minuto.
Peguei meu walkman e toquei alguns CDs no volume máximo, para encobrir a barulheira que vinha lá de baixo.E pensar que, poucas semanas atrás, ali estava eu me achando muito adulta porque Sel era minha melhora amiga e Joe gostava de mim, me achando o máximo por tê-los mantido fora da encrenca na escola, mesmo tendo sido expulsa por causa disso. Agora, tudo me parecia tão infantil!
Zac estava coberto de razão ao rir de mim.Então me ocorreu que eu precisava muito dele. Que a presença dele na minha vida era valiosa. Quantos lados de minha personalidade ele conseguia ver! Lembrei-me de todos aqueles "nossos momentos" juntos.
Durante algum tempo, eu tinha parado de pensar em Zac como uma pessoa e permitido que alguns vírus em seu corpo afetassem os meus sentimentos por ele! Mas ele era muito mais que isso. Prometi a mim mesma que, assim que o encontrasse, iria dizer-lhe tudo que ele significava pra mim.
Desci para ver como Sarah estava antes de sair para o festival. Quando desliguei a música, ouvi muitas risadas. Minha primeira impressão foi que Sarah tinha enlouquecido, mas logo em seguida ouvi vozes conhecidas.
- Mamãe! - gritei. Nunca fiquei tão feliz ao vê-la. Até Marcus viera.
- Minha querida cantora de banheiro, assim que soube que você ia se apresentar no festival, vi que não podia perder seu espetáculo!
- Tempo perdido, porque os ingressos estão esgotados faz séculos - respondi.
- Nada disso, Sarah me mandou alguns.
- Eu sempre mando alguns ingressos para sua mãe. Razões sentimentais - disse Sarah com um suspiro.
- Estivemos no primeiro Festival Netherby quando éramos adolescentes - explicou mamãe.
- E nos apaixonamos pelo mesmo garoto - acrescentou Sarah, rindo muito.
Mamãe riu também.
- Nós o seguimos pelo campo durante horas.
- Que coisa esquisita! - falei, enquanto Marcus não parava de pular no sofá gritando:
- Vocês se beijaram? Vocês se beijaram?
- Teria sido o máximo! - disse mamãe.
- Por favor, não faça isso - respondi sombriamente.
- Marcus, você pode me ajudar com a tômbola de poesias - disse Sarah, que parecia ter voltado ao normal.
Marcus franziu a testa:- O que é isso? Pelo nome, parece coisa bem estranha.
- É o maior barato. As pessoas compram um tíquete e, se tirarem um bilhete de rifa terminado em zero ou cinco, ganham um dos meus poemas.
- Vai sobrar algum pra mim? - perguntou Marcus.
- Nem pensar - disse mamãe.
- Dou-lhe algum dinheiro para cuidar da barraca - disse Sarah.
- Quero minha parte em dinheiro, não em poemas - respondeu Marcus, e demos boas risadas.
- Quer dizer que a minha cantora de banheiro agora faz backing vocal numa banda? - perguntou mamãe, dando-me um tapinha no joelho.
- Não só backing vocal. Vou cantar uma música sozinha: Because the night!
- Minha música favorita! - exclamou mamãe.
- Só que em versão anti-folk - expliquei.
- Mas que ótimo! - disse ela, com cara de quem não estava entendendo nada.
- É um tipo de música alternativa à música pop, que se tornou comercial demais. Com exceção dessa música que eu vou cantar, todas as outras foram compostas pela banda.
Mamãe levantou-se e perguntou:- Sarah, aquela minha velha mala ainda está por aí?
- Acho que sim... - disse Sarah. Mas ela não sabia direito no que mais Kai andara mexendo.Mamãe me levou para cima, enquanto Sarah e Marcus preparavam chocolate quente. No depósito ela puxou uma mala muito velha e empoeirada que estava sob uma pilha de caixas de papelão.
Assim que nos acomodamos, ela me disse:
- Agora me conte tudo.
Entrei em pânico. O que ela estaria sabendo?Mas era pura paranóia. Claro que mamãe não sabia nada a respeito de Zac . Será que é assim que ficam as pessoas que têm de guardar um segredo?
- Convém lembrar, minha filha, que Sarah é minha irmã. Ela parece estar em péssimo estado. O que foi que Kai fez dessa vez?
Foi um alívio contar a mamãe algumas coisas que vinham me aborrecendo. Omiti o fato de Sarah ter me acusado do roubo do vaso, mas contei sobre a namorada grávida de Kai.Mamãe pouco disse, mas percebi que estava furiosa.
- Muito bem, então é isso - ela pegou um pacote embrulhado em papel celofane e o estendeu pra mim.
Dentro, havia uma camiseta. Era de algodão bem fino, e na frenet havia uma foto meio desbotada da Patti Smith.
- Comprei-a num brechó no Camden Market há cerca de vinte anos. Foi usada por ela em seu primeiro concerto em Londres, na década de 1970. Agora é sua vez de usá-la.Perfeito!
- Muito obrigada, mamãe!
Zac ia adorar, pensei. De repente, olhei para o relógio. Já eram dez e vinte. Eu demoraria pelo menos dez minutos para chegar à casa da árvore. Será que Zac estaria à minha espera?
- Esqueci uma coisa para o concerto! - gritei enquanto descia a escada pulando os degraus de dois em dois.Antes que alguém pudesse me deter, eu já estava a caminho.
Desculpem a demora , espero que não parem de acompanhar ...
Obrigada aos maravilhosos comentarios : MyaH , aninha , jenny , baby t , iris , miss gabi

